Sites ajudam a tirar projetos do papel

Vai ficar mais difícil para o empresário reclamar de falta de dinheiro para tirar uma ideia do papel. Depois de se popularizarem lá fora, os sites de crowdfunding chegam ao Brasil e já permitem que microempresas se transformem em patrocinadores de projetos

danielsilva

02 de abril de 2011 | 23h00

CAROLINA DALL’OLIO

Vai ficar mais difícil para o pequeno empresário reclamar de falta de dinheiro para tirar uma ideia do papel ou para divulgar sua marca. Depois de se popularizarem lá fora, os sites de crowdfunding chegam ao Brasil e já permitem que microempresas se transformem em patrocinadores de diversos tipos de projetos e, assim, façam propaganda gastando a partir de R$ 100. Eles também tornam possível a captação de recursos diretamente do público interessado em sua ideia, sem precisar recorrer a bancos ou investidores.

Como? Um bom exemplo é o do designer norte-americano Scott Wilson, cuja ideia foi criar pulseiras que, uma vez acopladas ao iPod Nano, se transformavam em relógios bem bacanas. Ele poderia ter procurado a própria Apple, criadora do iPod, para custear a fabricação do produto. Ou então pedir um empréstimo a uma instituição financeira no valor de US$ 15 mil – dinheiro necessário para produzir os tais relógios. Mas decidiu seguir por outro caminho.

O inventor colocou seu projeto no site www.kickstarter.com, que divulga produtos inovadores, e pediu a colaboração dos consumidores que tivessem gostado dos relógios. Não se tratava, porém, de uma doação. Quem desse pelo menos US$ 25 já teria o direito de receber em casa o relógio – batizado de Tik-Tok. Para colaborações acima desse valor, as recompensas variavam, podendo chegar até a uma edição especial dos produtos.

Para que todo mundo fosse contemplado, o projeto teria de arrecadar o valor total pleiteado (US$ 15 mil). Ou então a ideia naufragaria e o dinheiro seria devolvido aos colaboradores. Resultado: Wilson conseguiu angariar nada menos de US$ 941,7 mil, além de testar com sucesso a aceitação de seu produto e fazer uma bela venda inicial.

E os colaboradores do projeto também saíram ganhando: levaram para casa os relógios a US$ 25, um preço mais baixo do que os US$ 34,95 que ele viria a custar no varejo logo depois de pronto.

Foram casos como esse que inspiraram empreendedores brasileiros a trazer o sistema crowdfunding ao País. O JT pesquisou oito sites que entraram no ar este ano. O Catarse, lançado em janeiro, foi um dos primeiros deste tipo no Brasil. “Com a web, é possível mudar a forma de financiamento de boas ideias, incentivar a inovação e fazer todo mundo sair ganhando”, afirma Diego Reeberg, estudante de Administração da FGV-SP e um dos fundadores do Catarse.

Mesmo com pouco tempo de vida, o Catarse já tem projetos bem-sucedidos em sua lista, como o Rabiscaria. O designer Carlos Filho, um dos idealizadores do Rabiscaria, queria criar um site em que artistas mandassem desenhos que pudessem ilustrar produtos – e assim torná-los únicos.

A ideia era que os desenhos com maior aceitação dos visitantes do site fossem estampados em copos, chinelos, garrafas térmicas e o que mais viesse à cabeça. Depois de customizado, carregando a marca do artista, o produto seria colocado à venda no site – e o artista receberia 10% do valor da venda.

Tudo certo. Só faltava o dinheiro para tirar a ideia do papel. Eles já tinham toda a estrutura do site, os artistas parceiros, mas não os recursos necessários para produzir o primeiro lote e, assim, se capitalizar para produzir e vender mais.

Carlos Filho e seus sócios precisariam de R$ 22,5 mil para a primeira produção. “Os bancos cobram juros muito altos, vimos que não teríamos condições de fazer um empréstimo”, diz Filho. “E para essa quantia tão baixa os investidores também nem dão bola. Tivemos que buscar outra fonte de recursos.”

No Catarse, conseguiram arrecadar pouco mais de R$ 23 mil. Mais da metade veio de apenas três apoiadores, que deram R$ 4 mil cada e receberam em troca telas do artistas naïf Moacir, da Chapada dos Veadeiros, avaliadas em mais de R$ 15 mil.

Criar recompensas atraentes, aliás, é chave para um projeto ser bem-sucedido no sistema crowdfunding. O pessoal do Motiva.me sabe disso e está de olho no potencial de pequenas e médias empresas como patrocinadoras de projetos. “Desenvolvemos um sistema para que as empresas possam colaborar em troca de banners no site e anúncios nas mídias sociais”, conta Luiz Antonio da Luz, um dos fundadores do Motiva.me.

Eles garantem, por exemplo, a citação da marca toda vez que os criadores do projeto fizerem um post no Twitter. “Já recebemos contatos de empresas e instituições interessadas na ideia”, informa Luz. O preço da propaganda vai depender do valor do projeto.