Treinamento para ficar no emprego

Redação

16 de outubro de 2011 | 17h20

Fernando Dantas

O governo pretende atacar com uma nova iniciativa de qualificação profissional aquele que é identificado como um dos maiores problemas da nova classe média popular que emergiu da pobreza na última década: a grande rotatividade do emprego, que limita o crescimento da produtividade, tolhendo a ascensão social e o aumento da remuneração.

O projeto, que está em fase final de elaboração na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), é o de oferecer o direito a um programa de qualificação aos trabalhadores do setor formal com salário até dois mínimos. Um detalhe importante, porém, é que a qualificação terá de ser decidida em comum acordo com a empresa contratante, como forma de aumentar a parceria entre empregado e empregador e desestimular a rotatividade.

“Nós temos de mudar a lógica que tem presidido a política de qualificação no Brasil, que é sempre voltada para o desempregado, e não para o empregado”, diz o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Wellington Moreira Franco. Ele acrescenta que, “se queremos melhorar a produtividade, temos que dar qualificação para o trabalhador empregado”.

Ricardo Paes de Barros, secretário de ações estratégicas da Presidência da República, explica que 24,5 milhões de trabalhadores formais (número de 2010), ou 56% do total na formalidade, ganham até dois salários mínimos. Em 2000, eram apenas 8,1 milhões, ou 31% do total do emprego formal. Dos 24,5 milhões, 63% pertencem à nova classe média popular, definida como aqueles em famílias com renda per capita familiar entre R$ 250 e R$ 1 mil.

O objetivo da política de redução da rotatividade é justamente proteger e fazer avançar essa classe média popular. “Não há hipótese de economia rica, forte, grande, se não tem uma classe média que dê estabilidade política e econômica ao sistema”, diz Moreira Franco. E um dos alvos do governo é reduzir a rotatividade no emprego desse grupo, para aumentar sua produtividade.

Os números são impressionantes. Apesar de corresponder a 56% dos trabalhadores do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o grupo que recebe até dois salários mínimos respondeu por 82% das demissões no mercado de trabalho formal no Brasil em 2010.

Um exemplo é o de Rafael de Souza Pereira, de 24 anos, eletricista com o segundo grau. Rafael trabalhou pouco mais de um ano numa construtora em Volta Redonda, com salário de R$ 792, e saiu no início de 2011. Depois disso, já passou por dois empregos. “Tem muito emprego aqui no Rio, só fica desempregado quem quiser”, ele diz.

Segundo os números de Paes de Barros, a taxa de rotatividade no mercado formal está em alta no Brasil, mas é ainda maior no segmento até dois salários mínimos, no qual cresceu de 55% para 57% entre 2000 e 2010.

Essa rotatividade é em parte explicada pelo enorme aumento dos desligamentos a pedido, isto é, em que o próprio trabalhador pede demissão. No total do trabalho formal, os desligamentos a pedido quase triplicaram, de 1,53 milhão em 2000 para 4,44 milhões em 2010. Nesse mesmo período, os empregos formais como um todo aumentaram 68%.

Mas o aumento dos desligamentos a pedido é ainda mais impressionante na faixa até dois salários mínimos. Entre 2000 e 2010, eles saíram de 902,5 mil para 3,75 milhões, mais do que quadruplicando.

Segundo Paes de Barros, esse aumento, especialmente na faixa inferior dos salários formais, é um sinal claro do aquecimento do mercado de trabalho. Ainda assim, ele acha que é um fenômeno que, quando exagerado, tem conotações negativas.

“É claro que deve haver alguma mobilidade entre setores e empresas, mas esses números mostram que nem a empresa nem o empregado estão tentando uma relação de maior duração, o que é ruim para a produtividade, que depende do aprendizado, da experiência e do investimento da empresa no trabalhador”, ele diz.

Pelos cálculos preliminares do economista, a um custo anual de R$ 5 bilhões seria possível oferecer uma semana de qualificação por ano a todos os trabalhadores formais ganhando até dois mínimos. Isso, por sua vez, poderia aumentar a formalização e, reduzindo a rotatividade do trabalho, diminuir a conta do seguro-desemprego, que já atinge R$ 20 bilhões anuais.

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