Mais um recall assusta o consumidor: o de alimentos

Insetos, ratos e detergente já foram identificados em casos recentes de contaminação alimentar. Desde 2004 mais de 11 milhões de unidades alimentícias e de bebidas foram convocadas por problemas de contágio na produção

danielsilva

30 Outubro 2011 | 23h00

SAULO LUZ

Um achocolatado com detergente que causa queimadura na boca. Um pacote de salgadinho com rato dentro. Esses são apenas dois dos mais escandalosos casos recentes de falhas no processo de produção das indústrias de alimentos e que colocam em risco saúde do consumidor.

Acostumado com recall de veículos, o consumidor brasileiro está começando a se habituar com um novo tipo de convocação: o de alimentos. De acordo com dados do Sistema de Acompanhamento de Recall da Fundação Procon-SP, foram requisitados mais de 11 milhões de alimentos e bebidas para recall desde 2004 (antes dessa data não há registro de recalls de alimentos).

As convocações aumentaram a partir de 2009 e, desde então, todos os anos registram ao menos um recall de alimento. Das 11.699.217 unidades de itens convocados, 11.472.572 (98%) foram recolhidos. “São 11 milhões de produtos que poderiam ter causado danos à saúde de milhões de pessoas. Como toda produção industrial em larga escala, as indústrias estão sujeitas a falhas e não existe garantia de 100% dos produtos saírem sem defeito”, diz Renan Ferraciolli, diretor de fiscalização do Procon-SP.

Apesar disso, alguns consumidores relatam que as fabricantes não assumem essas falhas de produção ou simplesmente ignoram as queixas. Foi o que aconteceu empresário Pedro Martin, de 71 anos. Ele costuma tomar um Toddynho por dia, pela manhã, para ajudar na ingestão de medicamentos. “Após começar a consumir as unidades de uma caixa nova, sofri com irritação constante da boca e meus lábios inferiores ficaram entumecidos e feridos.”

O empresário contatou a fabricante, a Pepsico, e enviou uma unidade para ser analisada. “Como não recebi resposta sobre o resultado do teste, mandei outras unidades do Toddynho para um laboratório particular.” Os resultados ainda não saíram.

Além dos casos de recall, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem interditado lotes de produtos, como no caso do de açúcar cristal das marcas Bratti e Estrela neste ano – foram encontrados fragmentos metálicos em suas composições.

De acordo com Angela Castro, gerente de inspeção da Anvisa, o consumidor deve sempre denunciar os casos à vigilância sanitária. “Precisamos da ajuda dos consumidores para que a fiscalização vá direto nos produtos irregulares. É importante que a vítima guarde o produto. Algumas pessoas jogam fora o produto, atrapalhado o processo de investigação.”

Ela recomenda que o consumidor denuncie mesmo quando o problema não é diretamente com produtos industrializados, mas com itens oferecidos em restaurantes e lanchonetes, por exemplo. “O consumidor tem de denunciar locais que entreguem ao cliente alimentos contaminados ou com problemas sanitários.”

Caso pontual
Há casos pontuais que não necessitam de recall ou interdição, já que não afetaram lotes inteiros. Foi o que aconteceu com o advogado Marcel Carlos da Silva, de 38 anos. Ele deixou de consumir a farofa de milho da marca Yoki após um jantar em família, no último dia 3 de agosto. Ao colocar uma pequena porção em seu prato, um pedaço escurecido saiu do pacote. “Pensei se tratar de um bacon, tanto que logo depois servi uma porção à minha esposa. Dei uma garfada, ela estava prestes à dar sua segunda quando percebi que o bacon era, na verdade, uma enorme barata.”

Ele promete ir à Justiça em busca de reparação. A empresa pediu para recolher o produto, mas Silva se recusou a entregá-lo. “É a minha prova. Vou encaminhá-la para análise e pedirei reparação por danos materiais morais.”

 

Empresas contestam versões dos consumidores

Em relação ao questionamento do consumidor sr. Marcel Carlos da Silva referente à Farofa Pronta de Milho 500g, que afirma ter encontrado um inseto dentro do pacote do produto, a Yoki informa que entrou em contato com o cliente, em 4/8/2011. Na ocasião, solicitou a entrega do produto à Secretaria da Agricultura e Abastecimento – Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, Instituto Biológico e Unidade Laboratorial de Referência em Fitossanidade – laboratório renomado e independente, ou retirada do mesmo para análise, com todos os gastos pagos pela empresa. Mas, em ambos os casos, o consumidor se recusou alegando não ter tempo no horário comercial e se comprometendo a fazê-lo na época de suas férias, no final do ano.

 A Yoki, preocupada em oferecer esclarecimento sobre o ocorrido e impossibilitada de analisar o  produto em questão,  comprou um outro pacote do mesmo lote, no mesmo supermercado que o consumidor, e encaminhou para análise. O laudo anexo, feito pela Secretaria da Agricultura e Abastecimento – Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, Instituto Biológico e Unidade Laboratorial de Referência em Fitossanidade -, atesta que a amostra encaminhada (embalagem lacrada, Lote: A5L C1DE) não continha fragmentos, formas jovens ou adultas de insetos e estava completamente satisfatória para o consumo humano.

 A Yoki esclarece ainda que todo o processo de fabricação da farofa é realizado por máquinas, com tecnologia de ponta, que trituram os grãos de forma a proporcionar um produto de extrema qualidade. Presente no mercado há 21 anos, a Yoki possui sete marcas e atua em 20 categorias, com produtos desenvolvidos com a mais alta tecnologia e seguindo rigorosamente regras e normas vigentes no mercado brasileiro. A Yoki tem e sempre teve por filosofia ser a fabricante de alimentos de confiança do consumidor.

A Spaipa (fabricante da Schweppes) esclarece que suas unidades fabris são certificadas nas normas ISO 9.001 e ISO 22.000. Estas certificações comprovam a eficácia do seu sistema de gestão, que possui práticas e controles que garantem a qualidade de seus produtos. Em especial, a ISO 22.000, que está relacionada às questões da segurança de alimentos e assegura os procedimentos e práticas que controlam os perigos potenciais considerados significativos nas diversas etapas da cadeia produtiva.

Em maio de 2010, a empresa atendeu o Sr. Antonio Roberto Carvalho Scartezini e esclareceu o procedimento padrão adotado no caso de reclamações referentes aos seus produtos. Seguindo o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, a Spaipa entrou em contato com o Sr. Antonio, via Central de Relacionamento e por meio de Carta Registrada, e se colocou à disposição para fazer a substituição do produto por outro da mesma espécie. O consumidor, porém, se recusou a realizar a troca. Desta forma, sem a posse do produto citado, a Spaipa ficou impossibilitada de realizar qualquer análise na amostra em questão. Quanto aos processos de fabricação do referido produto, nossos registros não apontaram nada que pudesse corroborar o suposto defeito alegado pelo consumidor.

 Já em relação à reclamação do consumidor Pedro Martin, da cidade de São Paulo, a PepsiCo, fabricante da marca TODDYNHO®, esclarece que de acordo com a análise da amostra do produto, entregue pelo reclamante, a unidade referida não apresenta qualquer alteração de cor, odor, sabor e aspecto. Além disso, a análise comprovou pH ideal para consumo,  de acordo com o padrão normal do produto, as exigências legais e de segurança alimentar.

Dessa maneira, o relatório demonstra que os sintomas apresentados pelo consumidor não estão relacionados a problemas de qualidade do produto. Vale ressaltar, ainda, que além dos produtos apresentados pelo Sr. Pedro Martin não apresentarem nenhuma alteração de qualidade, eles não têm relação com o caso verificado no estado do Rio Grande do Sul que, conforme comprovou a Vigilância Sanitária do estado, estava restrito aos produtos com numeração L4 32 com validade de 19/02/2012.  

A PepsiCo reitera o respeito com seus consumidores nos seus mais de 50 anos de atuação no Brasil,  pautado por suas ações éticas e transparentes dentro de rigoroso controle de qualidade para produção de todas as suas marcas.