Kodak sucumbe à era digital e pede concordata

Empresa que criou a câmera portátil e foi durante mais de um século líder no mercado global de fotografia não resistiu à popularização das câmeras digitais - que ela mesmo criou, na década de 70, mas não lançou para não criar concorrência para seus filmes

Redação

20 de janeiro de 2012 | 12h32

GUSTAVO CHACRA *

A Kodak não resistiu à competição na era digital e pediu ontem concordata, para tentar se reestruturar, pagar suas dívidas e competir em um mundo diferente daquele que colocou a empresa na liderança do mercado global de fotografias por cerca de um século. A medida afeta apenas os Estados Unidos, não englobando as subsidiárias em outros países.

“A reorganização dos negócios se destina a reforçar a liquidez nos EUA e no exterior, conseguir ganhos com questões de propriedade intelectual, lidar com passivos e permitir que a empresa se concentre em seus negócios mais valiosos”, afirmou o comunicado da Kodak.

A empresa, com sede em Rochester, no Estado de Nova York, afirma ter assegurado uma linha de crédito de US$ 950 milhões com o Citigroup, e a expectativa é de que a reestruturação seja concluída até 2013. Atualmente, documentos indicam que a Kodak possui US$ 5,1 bilhões em ativos e US$ 6,7 bilhões em passivos com vencimentos em setembro deste ano.

Evolução tecnológica
Inventora da câmara portátil, a Kodak acabou ficando para trás depois do advento das máquinas digitais, inventadas por eles próprios, nos anos 70. Em entrevista para rede de TV britânica BBC, o ex-vice-presidente Don Strickland, que deixou a empresa depois de fracassar em convencer os outros dirigentes a lançar o novo produto, afirmou que esse cenário era esperado.

Foram fechadas 13 fábricas nos EUA, onde a companhia possui 19 mil funcionários atualmente. No auge, chegou a empregar 145 mil (Foto: ADAM FENSTER/REUTERS)

“Nós desenvolvemos a primeira câmera digital e a Kodak poderia ter lançado (essa novidade) em 1992. Mas a empresa temia uma canibalização do mercado de filmes fotográficos”, afirmou o ex-executivo. Na época, os hoje esquecidos “tubinhos” geravam bilhões em lucros. Quando decidiu entrar no mercado digital, já estava em defasagem. A situação se agravou ainda mais com a chegada dos celulares que tiram fotografias.

Hoje a empresa se concentra em outras áreas, como a fabricação de impressoras para imagens. Além disso, a Kodak tem um catálogo de mais de 1,1 mil patentes que são usadas em aparelhos de gigantes da tecnologia como a Apple e a Samsung, que lideram os mercados de celulares e tablets.

As duas estão sendo processadas pela empresa de Rochester, que espera faturar milhões com as ações judiciais — dinheiro que usaria para sair da situação pré-falimentar.

Derrocada
A queda da Kodak foi um processo longo e era observado há anos por analistas do mercado. O valor de mercado despencou de US$ 31 bilhões para US$ 150 milhões em 15 anos. As ações, que estavam sendo negociadas por US$ 0,36 antes da suspensão dos negócios, valiam US$ 30 em 2004, quando já estavam em queda e ainda faziam parte do índice Dow Jones, que mede a variação dos principais papéis na Bolsa de Valores de Nova York.

Foram fechadas 13 fábricas nos EUA, onde a companhia possui 19 mil funcionários atualmente. No auge, chegou a empregar 145 mil.

O CEO e presidente do conselho de administração, Antonio Perez, afirmou ontem, ao anunciar a concordata, que “a Kodak está dando um significativo passo para permitir que seus negócios possam completar a sua transformação”.

Segundo ele, que está no comando da companhia desde 2005, a decisão de decretar a concordata foi unânime no conselho e vinha sendo cogitada no mercado desde o fim do ano passado, quando a empresa fracassou na tentativa de encontrar um comprador para o seu catálogo de patentes.

Novos rumos
Perez assumiu a empresa com o objetivo de deixar de lado o mercado fotográfico e investir em outras áreas, como a de impressoras. Seus críticos dizem que ele buscava, na realidade, se vingar da Hewlett-Packard, onde trabalhou por 25 anos e saiu depois de não conseguir o cargo de CEO.

Assim como a General Motors, que também decretou concordata em 2009 — e conseguiu se reestruturar –, a Kodak faz parte da cultura americana. Expressões como “momento Kodak”e até mesmo uma música de Paul Simon marcaram gerações de americanos.

As fotos dos astronautas americanos na Lua também foram feitas com máquinas produzidas pela empresa. Cerca de 80 filmes vencedores do Oscar usaram produtos da Kodak. Com a primeira câmera tendo sido fabricada por George Eastman, em 1888, a Kodak foi por anos o símbolo do futuro e da inovação. A câmera digital foi criada pela primeira vez em 1975, mas chegaria ao mercado pelas mãos de outras empresas apenas cerca de duas décadas mais tarde.

Em comunicado, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, afirmou que a decisão da Kodak de decretar concordata era “uma notícia triste para a cidade e o povo de Rochester”, onde cerca de 7 mil pessoas ainda trabalham para a antiga gigante. * CORRESPONDENTE / NOVA YORK

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