Entrevista com Geoffrey Miller

"Os pavões exibem a cauda para suas fêmeas indicando que têm bons genes e são saudáveis. Eu acredito que Darwin entenderia que os consumidores modernos consomem para serem como o pavão", diz o autor do livro “Darwin vais às compras”

danielsilva

28 Abril 2012 | 23h10

Como Darwin explicaria o comportamento consumista de hoje?
Os pavões exibem a cauda para suas fêmeas indicando que têm bons genes e são saudáveis. Eu acredito que Darwin entenderia que os consumidores modernos consomem para serem como o pavão. Décadas depois de Darwin, o economista americano Thorstein Veblen criou o termo “conspicuous consumption” (algo como ‘consumo ostensivo’). Porque a regra passou a ser do consumo que chama a atenção.

O desejo consumista é uma evolução ou um retrocesso?
Exibir nossas melhores características por meio do consumo ostensivo parece superficial. Mas não deixa de ser um progresso em relação a formas anteriores de busca pelo status como o combate e o roubo, comuns ao longo da história. Consumo é pelo menos algo que une pessoas em redes econômicas e de benefício mútuo.

O que acontece quando uma população experimenta o consumo pela primeira vez?
Quase sempre ela consome em excesso. Durante uma geração ou duas, todo mundo deseja o mais chamativo, mais recente e mais caro. Em seguida, a geração mais jovem cresce com a prosperidade já concedida e vai adotar formas mais sofisticadas de se mostrar ao mundo, como obter diplomas universitários, realizar trabalhos voluntários e comprar tecnologia sofisticada que facilita o cotidiano.

Satisfazer esse desejo de parecer melhor é legítimo?
As pessoas acabam se decepcionando ao perceberem que a ostentação não é tão eficaz como imaginavam para aumentar a popularidade ou a tornarem atraentes. Elas trabalham tão duro e compram com tanta voracidade que esquecem de desenvolver as habilidades sociais que conquistam há milhares de anos: senso de humor, bondade, confiabilidade, talentos musicais ou artísticos, educação e conhecimento sobre o mundo, aptidão física. Estas são as coisas que as pessoas, em todas as culturas, consideram socialmente e sexualmente atraentes. Bem mais que dinheiro.

E como as pessoas vão compreender que o consumismo não é suficiente?
O Brasil, como muitos países em desenvolvimento, está se tornando mais meritocrático, onde o que determina seu sucesso financeiro são seus próprios esforços e personalidade. Na meritocracia, a riqueza e o status que você alcança por si são sinais valiosos de características como inteligência, bom senso, ser antenado, ter saúde mental e resiliência emocional. Assim, o consumismo pode indicar um sinal de riqueza. Mas é o mérito o sinal de capacidade. Serve também para quem recebe herança. Ser herdeiro indica apenas que você teve sorte. Não revela quem você é realmente.