A estrela de Edy Star volta a brilhar

Com toda maturidade de seus 74 anos, Edy Star chorava como uma criança. Lágrimas de alegria, não de tristeza. Quando o mundo parecia ter lhe virado as costas, foi acesa a esperança. Segurava nas mãos a reedição do seu único disco, ...Sweet Edy..., lançado originalmente em 1974

Redação

27 de março de 2012 | 22h45

PEDRO ANTUNES

Com toda maturidade de seus 74 anos, Edy Star chorava como uma criança. Lágrimas de alegria, não de tristeza. Quando o mundo parecia ter lhe virado as costas, foi acesa a esperança. Segurava nas mãos a reedição do seu único disco, …Sweet Edy…, lançado originalmente em 1974.

A sorte voltava a sorrir para aquele baiano. Ícone da música underground, amigo de Raul Seixas, com quem gravou o álbum A Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, de 1971, ao lado de Míriam Batucada e Sérgio Sampaio, Edivaldo, ou Edy, é um remanescente (ou sobrevivente) dos tumultuados anos 70 – mais difíceis para ele, homossexual assumido em época de ditadura militar.

Depois de 18 anos morando em Madri, na Espanha, ele se mudou para São Paulo no ano passado, onde lutava pela sobrevivência. Nada parecia sorrir de volta para essa divertida figura. Na sua memória, eram saudosos os tempos em que dirigia shows em um cabaré da capital espanhola, “comandando 36 moças”, diz, com orgulho. Neste período próspero, viajou pela Europa e conseguiu juntar algum dinheiro. Em 2009, viria ao Brasil se apresentar na Virada Cultural paulistana. Outros shows na capital o fizeram ficar, esperançoso por uma retomada.

Por aqui, porém, nada seguiu como o planejado. “Eu tinha meu dinheiro, mas não conseguia lugar para ficar. Me pediam comprovante de renda. E isso eu não tinha.” Acabou encontrando abrigo num motel fuleiro na Praça do Patriarca, no desgastado centro da cidade. “Um lugar em que as pessoas ficavam para passar a noite quando vinham fazer compras na Rua 25 de Março”, conta ele.

…Sweet Edy… ainda pertencia à gravadora Som Livre, mas Edy conseguiu com eles os direitos autorais por cinco anos. Não sabia ainda como, mas desejava relançar aquele trabalho, um registro histórico – apesar de pouco lembrado – da música nacional. Ali estão reunidas músicas de Roberto e Erasmo Calos, Gilberto Gil, Caetano Veloso Jorge Mautner, entre outros, feitas especialmente para ele cantar, além de duas de sua autoria. A voz de Edy, rouca e grave, debochava do perfeccionismo dos interpretes da época.

Em meados do ano passado, um encontro mudou sua sorte. Através do pesquisador Rodrigo Faour ele conheceu o produtor Thiago Marques Luiz e o DJ e também produtor Zé Pedro. Deles veio a ideia de relançar o disco pelo seu selo. Edy, ainda que desconfiado, topou o projeto. Era a sua chance de recomeçar.

Ao receber o disco, chorou. Todo encartado em papelão, o álbum em sua nova versão vem com um livrinho com a biografia de Edy, escrita por Faour, e com fotos raras dos tempos no auge. Foram recuperados os depoimentos do encarte original, com gente do porte de Jorge Amado, Nelson Motta, Luis Gonzaga Jr., Guto Graça Mello, para citar alguns.

Firme nos trilhos, Edy agora planeja a vida. Voltou ao rol de atrações da Virada Cultural deste ano e hesita sobre novo disco, mas hoje, depois de tudo, mantém o bom humor. Questionado se poderia receber o JT em sua nova casa, na Bela Vista, para a foto que ilustra essa reportagem, rebateu: “De jeito nenhum! Não quero que ninguém saiba a cor do meu colchão. Vamos para a Avenida Paulista? Nunca tiraram uma foto minha lá. Vamos reparar isso (risos).”

LANÇAMENTO
‘…Sweet Edy…’
Joia Moderna
Preço: R$26,90

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