Alinne Moraes é Doroteia em peça de Nelson Rodrigues

Ser bela é o pecado de Dorotéia, personagem título da peça que o dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu em 1949. E a atriz Alinne Moraes empresta agora sua beleza para interpretar a mulher que, ao perder o filho, abandona a prostituição e se volta à família para alcançar a redenção. Essa nova montagem, dirigida por João Fonseca, estreia hoje, no Teatro Raul Cortez, em temporada até 14 de outubro

Redação

27 Julho 2012 | 23h05

IGOR GIANNASI

Ser bela é o pecado de Dorotéia, personagem título da peça que o dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu em 1949. E a atriz Alinne Moraes empresta agora sua beleza para interpretar a mulher que, ao perder o filho, abandona a prostituição e se volta à família para alcançar a redenção. Essa nova montagem, dirigida por João Fonseca, estreia hoje, no Teatro Raul Cortez, em temporada até 14 de outubro.

Com uma carreira na TV cheia de de personagens que trouxeram temas com relevância social– mãe solteira, lésbica, paraplégica –, Alinne diz que esta é a primeira vez em que a beleza aparece como destaque, curiosamente para a atriz que ingressou na atuação depois de ser modelo na adolescência. Por incrível que pareça, ela conta que, nessa época, ela também tentava se enfear para ser aceita e querida.

No caso de Dorotéia, a personagem também precisa deixar de ser bonita para se enquadrar ao processo de purificação exigido pelas três primas – feias e amarguradas –, que são interpretadas por homens, os atores Gilberto Gawronski, Alexandre Pinheiro e Paulo Verlings. “É um grande desafio, uma personagem muito completa. Inicia de um jeito, romântica, alegre e feliz, e acaba se tornando uma das primas”, resume Alinne.

“Nelson faz uma crítica total a como a sociedade trata a mulher e ao machismo, exatamente fazendo o contrário. A mulher, para ser considerada séria, não pode ter prazer e, se possível, na noite de núpcias, em vez de ter prazer, ter uma náusea”, comenta o diretor João Fonseca.

Também estão no elenco a atriz Keli Freitas, que vive a jovem Das Dores, e o ator Marcus Majella, que também interpreta um papel feminino, Dona Assunta de Abadia. Diretor polivalente, com espetáculos tão diversos como o musical Tim Maia – Vale Tudo e R & J – Juventude Interrompida, baseada no Romeu e Julieta, de William Shakespeare, Fonseca traz no currículo outros trabalhos de Nelson Rodrigues e diz ser prazeroso realizar esta montagem no centenário do dramaturgo recifense – que é comemorado no dia 23 de agosto.

Nelson escreveu Dorotéia especialmente para a então cantora lírica Eleonor Bruno, com quem manteve um caso. Chamada de Nonoca entre os amigos, ela, mãe da atriz Nicete Bruno, estreou o espetáculo em março de 1950, no Rio, sob direção do polonês Zbigniew Ziembinski – que antes, em 1943, já havia revolucionado o teatro nacional com a montagem de Vestido de Noiva, também texto de Nelson.

Mas o público de então aparentemente não entendeu a intenção do autor com a “farsa irresponsável em três atos”, subtítulo que a peça recebeu, a produção foi um fracasso – e foi tachada de “maldita”.  Em 1958, a peça voltou a ser encenada, tendo como estrela Dercy Gonçalves. E o texto rodriguiano ganhou os famosos “cacos” que a atriz costumava improvisar no palco.

Para sua composição de Dorotéia, Alinne Moraes conta que, como “um papel em branco”, deixou-se levar pelas indicações do diretor. Somente no final da preparação ela se permitiu dar toques pessoais, sem ligar para a pressão do centenário do célebre autor. “Pelo contrário, estou me divertindo. Não posso pensar nisso nunca, senão as coisas ficam complicadas mesmo.”