Caco Ciocler: ‘Cheguei a duvidar de Deus’

Pai de Bruno, 14 anos, o ator Caco Ciocler é hoje casado com a videoartista Marina Previato, 27 anos, e pensa em ter mais filhos. Em papo com o JT, ele fala sobre a sua relação com a religião - é judeu - e sobre a fama de galã

Redação

01 Novembro 2010 | 00h45

O ator Caco Ciocler não gosta da fama de galã: 'elimina uma etapa da paquera' (TIAGO QUEIROZ/AE)

O ator Caco Ciocler não gosta da fama de galã: 'elimina uma etapa da paquera' (TIAGO QUEIROZ/AE)

Adriana Del Ré  

De perto, o paulistano Caco Ciocler, 39 anos, é mais bonito do que na TV. Esse é um típico comentário que o ator diz achar bobagem. Mas, assim como o público que o encontra na rua, é difícil não cair na cilada das comparações. Caco preferia ficar invisível. Justo ele, que tem uma profissão de tanta visibilidade. Ele só queria observar o outro, para alimentar seu repertório de ator. E pensar que Caco quase foi engenheiro. Mas largou a faculdade na USP – onde cursava também a Escola de Arte Dramática –, em 1995. No mesmo ano, sua então namorada, a atriz Lavínia Lorenzon, ficou grávida. Pai de Bruno, 14 anos, é hoje casado com a videoartista Marina Previato, 27 anos, e pensa em ter mais filhos. No Teatro Nair Bello, onde está em cartaz com a peça ‘Casting’, ele falou com o ‘JT’.  

Você estudou em colégio judeu. Sua família é tradicional?
Não. Meus avós eram bastante religiosos, mas não ortodoxos. E meus pais, menos. Eu seguia as datas religiosas. A Páscoa era celebrada na casa do meu avô, onde a gente se reunia, rezava. Isso era importante. Tenho pouca ligação com os ritos judaicos, mas uma ligação forte espiritual e cultural.  

Atualmente, como é a sua relação com o judaísmo?
Para quem não é ortodoxo, o judaísmo promove um afastamento num primeiro momento. Isso é comum. Depois, promove um reencontro em outro lugar: na cabala, no misticismo, na interpretação não-literal do que é escrito. Mas esse retorno não é só judaico, é do ser humano. Tem uma idade que você acha que é besteira e outra que precisa de algo espiritual.  

Você sentiu necessidade desse afastamento?
Sim, com uns 15 anos. Acho que teve a ver com a figura paterna. Deus é a representação mítica da figura paterna. Houve um momento em que cheguei a duvidar da existência de Deus. Mas vi que era um equívoco.  

Em 1995, houve uma reviravolta: sua ex-mulher engravidou e você largou a faculdade de engenharia. É verdade que, nessa época, você e seus pais se afastaram?
Não foi assim. Quer dizer, foi, mas não brigamos. Foi uma coisa mais minha do que deles. Eu tinha uma estratégia, sem saber que tinha, do não-enfrentamento. Quando minha ex-mulher ‘(a atriz Lavínia Lorenzon)’ engravidou, eu tinha 24 anos, precisava trabalhar, sair da casa dos meus pais. Fui largando a engenharia e entrando no teatro sem eles saberem. Talvez, se a gente tivesse ido para o enfrentamento, poderia ter havido ruptura.  

O fato de sua ex-mulher não ser judia também pesou?
Sim. Pela tradição judaica, só é judeu quem é filho de ventre judeu. É uma questão clara e compreensível de não-continuidade do sobrenome, do judaísmo na família. Foi uma questão séria, mas absolutamente resolvida.  

Seus pais não aceitavam que você fosse ator?
Não aceitaram como ninguém aceita. Eu entendo meus pais. Ninguém na família é artista. E eu estava no 4º ano de engenharia química, na USP. Diziam: “Poxa, faz só mais um ano, pega o diploma”. Esse tipo de questionamento acho que até eu faria para o meu filho.  

Você não gosta de fazer galã?
Galã é muito chato. Hoje, sei o quanto é difícil fazer um papel assim. Mas acho ele menos rico que um D. Miguel (de ‘O Quinto dos Infernos’), que tem prisão de ventre e quer transar com a mãe. Há atores que pegam personagens galãs e transformam em outra coisa. Já fiz isso, só não queria essa continuidade.  

A fama interfere na sua vida?
Sem dúvida. Quando era criança e me perguntavam que poder eu queria ter, eu sempre queria ser o homem invisível. Claro que tenho alguns privilégios, mas fico um pouco constrangido, sabe? Como quando uma pessoa me reconhece numa loja ou restaurante e recebo um tratamento diferenciado. Acho que rouba do ator algo importante: ele é que tem de observar, não ser o observado.  

Fica mais fácil também com as mulheres, na paquera?
Sim. Você elimina uma etapa da paquera. A pessoa já sabe quem você é. Mas tem um lado prejudicial. Se eu for a um lugar onde ninguém sabe quem sou, eu não saberia mais paquerar. Por outro lado, fui a Nova York, cruzei com a Madonna, o Patrick Stewart, que é um ator maravilhoso. Senti por eles um pouco desse frenesi com o qual eu tanto me incomodo. Quando as pessoas me veem, tem aqueles comentários: “Olha como ele é mais bonito, mais feio”. Eu me sinto no zoológico. Mas fiz isso com Patrick. “Nossa, como ele é baixinho”. Claro que em silêncio ‘(risos)’.  

Como é para seu filho ter um pai famoso, ator de TV?
Acho que Bruno (14 anos) não gosta muito. Mas a gente tem uma relação fora disso. Não o levo para eventos. Como fico muito no Rio, faço questão de voltar para SP nas folgas. Tenho necessidade de fazer tudo pelo Bruno. Ele acabou de se mudar pra minha casa. Ele sentia essa vontade e eu também.  

Confira parte da entrevista em vídeo

http://tv.estadao.com.br/videos,PALAVRA-CRUZADA—ENTREVISTA-COM-CACO-CIOCLER,123678,275,0.htm

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