Cartunista Angeli é tema do projeto ‘Ocupação’

‘Ocupação Angeli’ reúne momentos cruciais dos últimos 15 anos da carreira do chargista

Redação

16 Março 2012 | 22h44

MAIARA CAMARGO

Ele criou Rê Bordosa, a junkie mor dos anos 80, Bob Cuspe, jovem de periferia símbolo do movimento punk versão nacional, e Woody e Stock, dois hippies dos anos 60 que envelheceram e se tornaram obsessivos fumantes de orégano. Fez sucesso com esses personagens, mas, depois, não teve problemas em matá-los ou simplesmente sumir com eles. Em seus desenhos, o cartunista paulistano Angeli, de 55 anos, não poupa ninguém. Muito menos seus próprios personagens ou ele mesmo. Essa e outras facetas de seu trabalho podem ser descobertas na mostra Ocupação Angeli, no Itaú Cultural, até 29 de abril.

Com curadoria de Carolina Guaycuru, designer gráfica e mulher do desenhista, a exposição reúne 800 obras de Angeli, sendo 80 originais, e ainda 20 fotos do chargista, da infância até os dias de hoje. Para facilitar o mergulho no espírito da obra, os visitantes são levados a um espaço que remete ao estúdio do próprio Angeli, local frequentemente retratado em suas obras. A cenografia é da arquiteta Patrícia Rabbat.

Nascido no bairro da Casa Verde, Angeli é filho de imigrantes italianos. Estudou até a quinta série, foi expulso da escola e começou a trabalhar cedo. Fã de Millôr Fernandes, Jaguar e Ziraldo, publicou seu primeiro desenho na extinta revista Senhor, aos 14 anos. E desenvolveu um gosto por tipos urbanos com comportamentos fora do padrão.

A partir de 1973, quando estava com 17 anos, o cartunista Angeli passou a ter suas obras publicadas no jornal Folha de S. Paulo, onde trabalha até hoje. Regularmente, no periódico, ele também assina charges políticas, além de emprestar seus desenhos para outras publicações, cartazes, capas de discos e ilustrações. São mais de 30 mil desenhos já impressos.

Foi com base nesse acervo – que o chargista mantém muito bem organizado em sua casa – que a curadora Carolina Guaycuru garimpou o material que compõe o projeto Ocupação Angeli, no Itaú Cultural. Ela explica que, embora a mostra apresente um panorama da trajetória de Angeli, o foco são seus últimos 15 anos de carreira. “Eu não quis focar só naqueles personagens que já são conhecidos. A ideia é mostrar uma face do Angeli que as pessoas não esperam. Destacamos o artista que ele é hoje e não quem ele foi há 30 anos.”

Ainda assim, marcos da carreira do desenhista estão na exposição, incluindo uma reprodução em papel-jornal de sua primeira charge. “É um desenho que trata da disputa dos partidos MDB e Arena”, lembra Carolina. Do período, também merece destaque o desenho premiado no Salão de Humor de Piracicaba, em 1975.

Outro trabalho que tem lugar garantido na Ocupação é a revista em quadrinhos Chiclete com Banana (1985 e 1990). Considerada um sucesso, a publicação, que tinha na equipe Luiz Gê, Glauco e Laerte Coutinho, entre outros, chegou a ter a tiragem de 110 mil exemplares. “Selecionamos algumas fotonovelas feitas para a revista. São obras que mostram bem a efervescência do período”, diz a curadora.

Do momento mais recente, integram a mostra as séries República dos Bananas, que trazem tipos de comportamento estranho, e Angeli em Crise, na qual o próprio autor surge propondo questionamentos reflexivos. Há ainda esculturas que fizeram parte do curta em stop motion Dossiê Rê Bordosa, de 2008, e retratam tanto a personagem quanto o cartunista. O filme, aliás, estará em exibição durante o evento, que inclui uma mostra de cinema com obras que têm Angeli e seu traço como referência.

Ocupação Angeli
Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149. Tel. 2168-1776. Até 29/4. De terça
a sexta, das 9h às 20h. Sábado
e domingo, das 11h às 20h. Grátis.
A programação de filmes está em: itaucultural.org.br/ocupacao