Danton Mello: “Família está sempre em primeiro lugar”

Dedicado às filhas, Laura e Alice, o ator Danton Mello fala sobre a educação das meninas, e afirma que não abre mão do tempo livre com elas, "nem por um trabalho com o melhor diretor do mundo". Sem medo de ser julgado, ele fala sobre religião, e diz que é ateu

Redação

15 Novembro 2010 | 13h00

Bianca Balsi

Aos 35 anos, o ator Danton Mello celebra 30 de carreira. A infância no trabalho não foi a única coisa precoce em sua vida. O casamento também veio cedo, aos 19, com seu primeiro e grande amor, a roteirista Laura Malin, 36. A relação entre ele e a ex-mulher, de quem está separado há 5 anos, acabou salvando sua vida, quando sofreu um acidente em Roraima e ficou três dias perdido na Floresta Amazônica. Do casamento, vieram as duas pessoas que Danton considera as mais importantes em sua vida: as filhas Alice, 6, e Laura, 8. “Elas vêm sempre em primeiro lugar. Até mesmo de um trabalho com o melhor diretor do mundo”. Em cartaz no teatro Frei Caneca com o espetáculo Os 39 Degraus, o ator falou ao JT.

Foto: Paulo Pinto/AE

Consegue manter o estilo de família mineira com suas filhas?
Coloco minha vida pessoal e particular em primeiro lugar. Sempre. Por exemplo, estou com a peça em cartaz e acabei de recusar dois filmes que eu queria fazer. Eu teria de filmar de segunda a quinta. Não teria mais tempo para elas. Também ajuda a relação que tenho com minha ex-mulher (Laura Malin), que é maravilhosa.

Que atores você mais admira?
Admiro muito o Tony Ramos. Quando fui convidado para a novela Caminho das Índias e soube que eu ia fazer o filho mais velho do Tony Ramos, fiquei muito feliz. Era um sonho pra mim. Quando começamos a trabalhar na novela, eu virei a sombra do Tony.

É inevitável a comparação entre você e seu irmão (Selton Mello). Como lidam com isso?
Todo mundo compara. Mas essa diferença na carreira aconteceu naturalmente. Ele abriu mão de muita coisa em televisão para se dedicar ao cinema. Eu não abro mão nem de TV nem de teatro pra fazer cinema. Se surge um convite para um trabalho de 3 meses no Nordeste, eu não vou. Nem que seja com o melhor diretor do mundo. Não vou ficar 3 meses longe das minhas filhas.

Pensa em trabalhar com Selton?
A gente tem vontade. Acho que o público também gostaria de ver os irmãos juntos. Seria bacana.

Foto: Paulo Pinto/AE

Sobre o acidente que você sofreu (em 1998, ele estava a bordo de um helicóptero que caiu na selva amazônica, em Roraima). Na época, foi divulgado que sua ex-mulher pressentiu algo e pediu para começarem as buscas.
Durante meu casamento com a Laura, eu falava com ela todos os dias. No dia do acidente, eu não liguei. Ela começou a achar que tinha acontecido alguma coisa. Aí, aconteceu uma grande coincidência. Eu chamo de coincidência. Outros chamam de destino, visão. Mas uma amiga ligou pra ela, e ela disse que estava me procurando. Essa amiga estava jantando num restaurante onde estava o Boninho (diretor da TV Globo). A Laura falou: ‘Avisa o Boninho que aconteceu alguma coisa com o Danton’. Daí, o Boninho acionou o jornalismo e começaram as buscas. Fomos encontrados 30 horas depois. De fato, aconteceu isso da Laura pressentir algo. Eu não acho que foi uma visão ou nada disso. Sou meio cético.

Você disse que é cético. A maioria das pessoas agradeceria a Deus por sobreviver a um acidente como esse, no meio da selva…
Pra mim, foi puro acaso, sorte, fui forte. Só isso. Nada mais.

Não acredita em Deus?
Não. Sou ateu.

Não chegou a rezar nem quando estava perdido na Amazônia?
Não. Não preciso de nenhuma religião pra praticar o bem. Não é nenhuma religião que vai ditar meus valores morais.

Você se casou aos 19 anos. Acha que foi cedo demais?
Foi muito precoce. Eu sou muito precoce em tudo. Tanto que eu saí de casa aos 18 anos, exatamente pra morar com a Laura.

Ela tinha a mesma idade?
Ela é um ano mais velha. Ficamos juntos dos 17 aos 30 anos. E foi uma relação linda.

Não foi mais difícil por serem muito jovens?
Não. Foi acontecendo e foi ótimo. A gente foi aprendendo no dia a dia, crescendo juntos.

Como foi a decisão de se separar?
É difícil falar disso. Começaram a rolar atritos e a gente achou melhor não ficar mais junto. A gente ainda tentou voltar a namorar e não deu certo. Não estava legal como foi durante tanto tempo.

Acha que todo casamento sofre esse desgaste natural?
Muitos conseguem passar, e outros, não. A gente não conseguiu. Hoje, eu ainda penso que se a gente tivesse tentado mais um pouquinho, talvez a gente tivesse conseguido ficar junto.

Adaptou-se à vida de solteiro?
Passei por um período meio esquisito. Eu me vi sozinho aos 30 anos. Foi estranho. Mas hoje consigo ficar muito bem sozinho. Uma coisa que eu costumo falar sobre esse assunto é que eu estou sozinho, não solteiro. Solteiro é quem procura outra pessoa. E eu não estou à procura de ninguém.

Acha que pode rolar o mesmo que rolou com Laura outra vez?
Como rolou, não. Mas sou muito jovem. É claro que ainda posso amar alguém e construir uma nova história. Mas hoje, isso nem passa pela minha cabeça. Minhas filhas estão em primeiro lugar, a criação delas. Não consegui nesses últimos anos colocar ninguém na minha vida a ponto de ter uma parceria. Vou devagar, curtindo o dia a dia. Não penso muito no amanhã. Aprendi com o acidente que a gente tem de viver o dia de hoje porque pode não existir o dia de amanhã.