Ela escuta histórias de amor

A artista paulista Ana Teixeira se senta em uma cadeira em alguma parte de São Paulo e ouve, com tricô em mãos, o que os transeuntes têm a dizer sobre seus causos amorosos. É o projeto Escuto Histórias de Amor

Redação

28 de abril de 2012 | 23h15

ADRIANA DEL RÉ

Ao contrário do que pregou o rapper Criolo, existe, sim, amor em SP. Mas não só por aqui. Esse sentimento “existe em qualquer lugar, desde que queiramos que ele exista”. Palavras da artista Ana Teixeira, de 54 anos, nascida em Caçapava e criada em Pindamonhangaba, interior paulista. Há sete anos, ela desenvolve não só pelas ruas de São Paulo – onde vive desde os 39 anos –, como também em outras partes do mundo o projeto Escuto Histórias de Amor.

Numa ação essencialmente de rua, Ana senta-se numa cadeira e põe outra ao seu lado. Enquanto espera que alguém que esteja passando sente-se e conte espontaneamente sua história, a artista tricota uma peça vermelha, que, até o momento, tem quase 4 metros. “Ela faz parte do meu kit, que inclui uma bolsa, as duas cadeiras e os banners em diferentes idiomas”, conta Ana, formada em Artes Plásticas pela USP. No dia 5, seu trabalho, pela primeira vez, não ocupará um espaço de rua: ele vai para o Sesc Belenzinho, dentro da programação da Virada Cultural.

Ana Teixeira escuta historias de amor (Foto: Marcio Fernandes/AE)

O que fez você seguir carreira nas artes visuais?
O desenho, a pintura e outras modalidades artísticas foram práticas constantes em minha vida desde a infância, porém iniciei a graduação em artes visuais aos 37 anos. Sempre foi o que quis fazer.

Quando você partiu para as ações na rua?
Já no meu projeto de graduação, exposto na Casa das Rosas em 2000, estava presente minha vontade de inserção no campo. As ações de rua começaram em 1998, ainda na graduação, e foram tomando corpo com os anos. Foram tema de meu mestrado na USP, que se intitula Trocas: A arte na rua e a rua na arte, de 2005.

Em que momento você viu que o ‘amor’ tinha potencial para virar tema de estudo?
O amor, como os sonhos, os desejos, a solidão, o luto ou a identidade são temas universais que me interessam. Já abordei todos estes temas em trabalhos, sejam eles ações, desenhos, instalações ou filmes.

Como surgiu a ideia do projeto Escuto Histórias de Amor?
Como já disse, o amor é um dos temas de meu interesse. A relação entre público e privado é outra. Escolhi ir para as ruas e propor uma escuta quase silenciosa de histórias pessoais. Para cada ação, penso nos instrumentos necessários: banca de camelô? Carrinho? Neste caso, optei por ter duas cadeiras e por fazer algo enquanto espero, silenciosamente, por transeuntes que venham me contar uma história de amor. Pensei em Penélope esperando Ulisses e escolhi o tricô, um fazer doméstico, tradicional, que sugere afeto – e afetar e deixar-me afetar são ações que também me interessam.

Em São Paulo, onde você costuma ficar para ouvir as histórias? E em quais dias da semana?
Eu não tenho dias fixos para fazer minhas ações. Elas acontecem esporadicamente, de acordo com diversos fatores. Já fiz as ações tanto no centro da cidade, quanto na Avenida Paulista e região. Também em diversas cidades do interior de São Paulo.

E quem quer se senta ao seu lado e começa a contar sua história?
Falando especificamente de Escuto Histórias de Amor, sim. Quem quer, vem e conta uma história. Eu nunca identifico o trabalho como um trabalho de arte. Acho completamente desnecessário. Aos que me perguntam o que faço, digo: eu escuto histórias de amor. E é a mais pura verdade.

Você participará da Virada Cultural, no Sesc Belenzinho, no dia 5, das 18h à 1h, certo?
Pela primeira vez, farei este trabalho em um espaço que não é o das ruas. Também pela primeira vez ficarei por tantas horas seguidas me prestando à escuta. Estarei na entrada do Sesc Belenzinho, um lugar de passagem e trânsito de pessoas, silenciosamente esperando quem queira me contar sua história de amor.

Afinal, existe amor em SP?
Existe amor em qualquer lugar, desde que queiramos que ele exista. Amor é desejo, é invenção, e como diz Guimarães Rosa: “Todo amor não é uma espécie de comparação?”.

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