Entrevista com Heloisa Périssé

No ar como Monalisa de ‘Avenida Brasil’ (Globo), a atriz carioca acaba de lançar o filme ‘O Diário de Tati’ – que precisou esperar seis anos para ver chegar aos cinemas

Redação

26 Agosto 2012 | 23h40

JOÃO FERNANDO
Heloisa Périssé exercitou toda a sua paciência nos seis anos em que esperou pelo lançamento do filme O Diário de Tati, que chegou esta semana aos cinemas. Por causa de mudanças estratégicas de divulgação, o longa ficou na gaveta. A atriz carioca, de 46 anos, porém, não se abateu. Foi perseverante. Assim como no início da carreira, quando tentou muitas vezes ser aprovada em testes para atuar na Globo.
Hoje, é uma das estrelas do humor na emissora. Sucesso no teatro com Cócegas, que ficou cerca de dez anos em cartaz, ao lado de Ingrid Guimarães, ela está na novela das 9 Avenida Brasil, como Monalisa, e tem planos de voltar aos palcos com novos espetáculos, em que quer trabalhar com as filhas, Luiza, de 13 anos, e Antônia, de 5.

Qual a sensação de lançar o filme depois de seis anos de espera?
Quando fiz a primeira reunião na Globo Filmes, disseram que tinham feito uma pesquisa e que só havia um mês para lançá-lo – e que não era um mês bom: agosto. Durante seis anos, me perguntavam e eu dizia: ‘agosto de Deus’. Era a única coisa que faltava para Tati. Ela virou livro, disco, foi para a TV. Filmar sem poder lançar seria um aborto.

Em que a sua adolescência tem a ver com a da Tati?
Nos conflitos. Fui uma adolescente com todas as letras maiúsculas em neon. Foi uma fase muito importante da minha vida e inesquecível. Eu morava na Bahia. Quem não é feliz morando lá? Meu pai foi transferido para lá. Fui para o Rio só porque queria ser atriz. Se eu quisesse ser advogada ou médica, estaria na Bahia até hoje.

Você nasceu no Rio, não?
Sim, sou do Rio. Mas a vida inteira mudei muito, porque meu pai era militar. Com um mês, fui morar nos EUA. Depois voltei, fui para Mato Grosso, Brasília, Bahia. Me mudei para o Rio com 19 anos. Fiz CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e Tablado, a via-crúcis toda.

Por que decidiu se mudar?
Fui para o Rio para ver como era. Eu tinha de saber o que era teatro para entender essa profissão. Entrei na CAL. A primeira pessoa com quem estudei foi Hamilton Vaz Pereira (diretor e autor). Nesse meio tempo, fui fazer um teste para um curso do (ator e diretor) Domingos de Oliveira. Quando acabei, ele me perguntou se eu topava ler uma peça dele. Eu li e ele me colocou no elenco de As Guerreiras do Amor, que tinha Maitê Proença. Foi a partir da peça que escrevi um filme. Depois, escrevi um infantil, que vou remontar para a Luiza (sua filha) fazer, agora que ela quer teatro.

Como esse lado autora nasceu?
Quando cheguei ao Rio, escrevi minha primeira peça e um filme, Hermes Baby. Quando você vai escrever, escreve a rubrica e a intenção do personagem. Pessoas como Domingos e Joaquim Assis leram meu roteiro. Eles disseram que eu tinha noção do que queria, mas não tinha técnica. Depois, fui me educando, as pessoas foram me dando toques. Sou uma pessoa da intuição. Quando eu era pequena, já tinha nome artístico, queria ser atriz de Hollywood. Quando eu tinha 4 anos, perguntavam o que eu queria ser quando crescesse e eu dizia: ‘atriz’.

Seus pais reagiam bem?
Minha mãe ficava desesperada, porque, na época, o bonito era ter filha professora, advogada. Ela dizia para os outros: ‘Quando crescer, ela muda’. E eu dizendo que não ia mudar e que tinha um nome: Linda Strice. Eu achava que Linda era o melhor nome que uma mulher poderia ter. Você pode até ser um bagulho, mas quando perguntam seu nome, você dizia: ‘Linda’. Já era um upgrade.

Foi difícil entrar na televisão?
Eu descia muito a Lopes Quintas (rua onde fica a sede da Globo, no Rio) chorando. Eu ficava muito nervosa fazendo teste. Nunca passei. Eu sabia que daria certo quando alguém me visse e dissesse: ‘Vamos apostar’. As pessoas me viam em cena, diziam que eu era boa e me chamavam para o teste. E eu ia. Quando chegava lá, eu micava, a ponto de perguntarem: ‘Essa é a engraçada?’. Mas tudo na vida tem hora certa para acontecer.

E como aconteceu?
As pessoas me viam no teatro e me chamavam para fazer teste e participações. Meu primeiro contrato como atriz na Globo foi em 1996, no Chico Total (de Chico Anysio), em que fazia vários quadros. Mas o meu contrato foi como autora em 1991, quando eu adaptei Machado de Assis para TV. De 640 pessoas, selecionaram oito e eu entrei.

Sempre trabalhou com humor?
Desde que nasci. Humor é uma característica da pessoa, não é porque você é ator. Como tenho isso forte em mim, foi a porta pela qual entrei. Na minha cabeça, eu tinha claro que faria outras coisas. Queria fazer drama, ter papéis sérios. E quero fazer uma vilã, uma mulher tímida, uma reprimida. Sou uma gulosa.

Agora, você se sente realizada?
Fiz Cama de Gato, Cordel Encantando e Dercy. Agora, estou num papel que amo. Mas a Dercy foi maravilhosa de fazer, chorei lendo o roteiro, pois era diferente dos outros. Não era caricata, era humana.

E a Monalisa ficará com Cadinho?
O Cadinho ainda não chegou à minha vida. Até encontrei a Julia Lemmertz outro dia e falei: ‘Vou pegar teu marido (Alexandre Borges), hein’. E ela disse: ‘Todas estão pegando’. Ela já estava resignada.

Além da novela, você também está no ar nas reprises do canal Viva. O que você sente ao rever?
Eu gosto de rever. A gente fazia com tanto carinho. A Tati era a maior trabalheira, era como se a gente fizesse um longa em 20 dias. Às vezes, eu me maquiava inteira para entrar no estúdio e dizer só ‘fala sério’. Um dia, eu falei para o Maurinho (Mendonça, diretor): ‘Sabe o que é, a Tati é a minha enteada’. Ele disse que não, que ela era a minha entidade.

‘Cócegas’ pode voltar aos palcos?
Não sei. Agora, a Ingrid (Guimarães) está ensaiando uma nova peça e eu estou começando a ensaiar outra. A gente não tem nada determinado. Quem sabe um dia a gente não ressurge?

Qual é a sua nova peça?
E Foram Quase Felizes para Sempre, uma peça minha, em que vou atuar também. Quero estrear em São Paulo, em abril do ano que vem. É a história de uma pessoa que está lançando um livro chamado Cantinho para Dois. Só que ela se separou justamente por causa do livro, para o qual ela viajou visitando os melhores hotéis para uma lua de mel inesquecível. Por causa de tanta viagem, o marido não aguentou e acabou se separando. Quem vai dirigir é o Mauro Farias, meu marido, e a Suzana Garcia, mulher do Herson Capri.

Você e a Ingrid continuam grudadas?
A vida dela tomou um rumo e a minha, outro. Mas quando você é amigo, longe é um lugar que não existe.

Como está sua vida neste momento de gravações de Avenida Brasil?
Às vezes, gravo todos os dias. Agora, deu uma equalizada porque todas as coisas estão sendo descobertas e a Monalisa está indo para a zona sul.

A vida ficou difícil?
Você dá uma afastada da galera que está em casa. Ligava para a Luiza e perguntava o que ela estava fazendo, se já tinham buscado a Antônia na escola. Como já sou macaca velha, deixo tudo no gatilho. E tenho um HD externo que se chama Irene, a minha nanny. Ela sabede tudo, é um gênio.

Como está lidando com a vontade da Luiza de se tornar atriz?
Ela ainda não está estudando teatro. Quero que ela se concentre nos estudos dela. Ela é uma locomotiva. Está Tati demais, com 13 anos. Se eu ficar com cabelos brancos, você vai saber o que é. ::

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