Estrela por acaso

Potiche – Esposa Troféu, que estreia hoje, traz o ator Gérard Depardieu. Ele vive Babin, líder sindicalista de esquerda e antigo amor de Suzanne Pujol, papel de Catherine Deneuve

Redação

23 Junho 2011 | 23h04

Flavia Guerra / ABU DABI

Bem antes de ser destaque no Festival Varilux de Cinema Francês, este mês, e de trazer a diva Catherine Deneuve ao Brasil, Potiche – Esposa Troféu, que estreia hoje, foi um dos destaques do Festival de Cinema de Abu Dabi, no fim de 2010.

No também chamado Festival de Cinema do Oriente Médio, a exibição de um filme que mostra as contradições entre o que se espera de uma ‘esposa troféu’ e o que esta esposa (Suzanne Pujol, vivida por Catherine) descobre que quer da vida foi, no mínimo, corajosa.

Num território em que uma mulher troféu tem infinitos significados, falar de emancipação feminina, tanto cultural quanto política, com o humor peculiar que só François Ozon é capaz de dar ao tema, foi uma escolha criativa do festival.

Ironicamente, foi um homem que representou o longa em Abu Dhabi: Gérard Depardieu, que em Potiche vive Babin, líder sindicalista de esquerda, às voltas com a senhora Pujol, seu antigo amor e agora inimiga.

Casada com Robert Pujol (Fabrice Luchini) – dono de uma fábrica de guarda-chuvas autoritário com os empregados e com a família –, ela tem de assumir o comando dos negócios, quando, após uma greve na fábrica, o marido é sequestrado e tem uma crise.

Suzanne pede ajuda a Babin para botar ordem na situação e recuperar o marido. No caminho, descobre que é muito mais do que uma ‘mulher objeto’.

Em Abu Dabi, Depardieu, para quem ser ator é difícil, mas ser atriz é mais ainda, esbanjou sua simpatia peculiar e conversou com nossa reportagem sobre cinema, feminismo, seu ofício e provou porque, aos 61 anos, e com mais de 150 filmes no currículo, ainda é um dos atores franceses mais ativos.

Ele afirmou que suas escolhas, como a de fugir de casa aos 12 anos para seguir uma companhia de teatro itinerante, sempre foram intuitivas. E que, ainda que não se declare ‘um ator politizado’, não tem medo de dar opiniões.

No Festival de Veneza, Ozon afirmou que, para ele, você é um gênio, um dos atores mais importantes do mundo. Você sente essa responsabilidade?
Não. Claro que sei que um ator representa não só seus papéis. Mas se parar para pensar nisso, não trabalho. Nunca quis ser estrela. Não tenho nem mesmo um plano de carreira, apenas vivo minha vida, dia após dia.

Ser ator é uma profissão de fé?
Ser ator é muito difícil. Acho que é mais difícil ser atriz. Mas, não é fácil para os homens. Temos de lidar com a vaidade, a idade. Veja meu caso. Nem sempre gosto de ver essa barriga imensa na tela.

Por que ser atriz, assim como ser política ou presidente de uma empresa, é mais difícil?
O nosso mundo ainda é machista. Envelhecer na frente das câmeras é muito mais difícil para uma atriz do que para um ator. Ninguém quer ver uma diva ficar velha. Poucas, como Catherine, Fanny Ardant, Sophia Loren, conseguem estar acima disso. Beleza é mais do que algo físico. É ter alegria de viver. Tem a ver com a forma como nos sentimos. É como o vinho. Se é ruim quando jovem, mesmo envelhecido, vai continuar sendo ruim. E vice-versa.

Por falar em mundo machista, Ozon afirmou que ‘Potiche’, ainda que se passe nos anos 70, diz respeito aos políticos de hoje na França, em especial às críticas sexistas que Ségolène Royal recebeu, da esquerda e da direita, quando concorreu contra Sarkozy à presidência.
Infelizmente, o machismo ainda é atual, mesmo com tantas conquistas femininas. Não sou um cara que vê os ‘movimentos’ só. Antes de tudo, vêm as pessoas. Mas é fato que ainda há muito chauvinismo a ser combatido no mundo. E não é de direita nem esquerda. É algo humano.

É por isso que filmes como ‘Potiche’ ainda são tão atuais?
Sim. Mas não fiz Potiche porque é um filme político. E não adoro o Babin porque ele é um líder comunista, mas sim porque ele é movido por amor. Além disso, fiz o filme porque adoro a peça (na qual o filme foi baseado, escrita por Pierre Barillet e Jean-Pierre Gredy), porque queria trabalhar com François Ozon, para mim um dos mais talentosos diretores da atualidade, com Luchini, um grande ator que consegue emprestar sua simpatia a um personagem chauvinista que quer dormir com todas as mulheres e, por fim, porque há o Babin, este cão de guarda comunista que se vê apaixonado pela belíssima Catherine. Enfim, eu queria fazer uma comédia francesa.

É inspirador ouvir você falar do cinema assim, dois anos depois de ter afirmado que iria parar de fazer cinema.
Eu não deixei o cinema. O cinema é que deixou os filmes. Repare bem. Há uma crise de criatividade. Quando eu era jovem, os filmes tinham, no máximo 1.500 cenas. Hoje, tudo tem de ser rápido para entreter o público. Agora, um filme chega a ter 3 mil cenas ou cortes. É uma confusão. Como aprofundar um tema assim?

Mas há outros temas que você quer aprofundar, não?
Sim. Escrevi um livro com minhas receitas (My Cookbook), cuido do meu restaurante em Paris e da minha vinícola no Vale do Rhône, na Provence. Também amo a arte da gastronomia.