Ficção científica tupiniquim

O escritor Jorge Luiz Calife, 59 anos, não tem celular. “Acho chatíssimo aquela caixinha tocando toda hora”, diz. Mas é considerado um dos grandes autores brasileiros de ficção científica hard, segmento em que os textos são elaborados com rigor científico, com inspiração na astronomia, biologia, genética e computação

Redação

02 Fevereiro 2011 | 14h11

Felipe Branco Cruz

O escritor Jorge Luiz Calife, 59 anos, não tem celular. “Acho chatíssimo aquela caixinha tocando toda hora”, diz. Mas é considerado um dos grandes autores brasileiros de ficção científica hard, segmento em que os textos são elaborados com rigor científico, com inspiração na astronomia, biologia, genética e computação. Os personagens de Calife, presentes na trilogia Padrões de Contato, escrita há 26 anos, usavam apetrechos tecnológicos que só agora vemos nas ruas, tais como tablets (descrito na obra como videoprancheta), conexões sem fio, memórias digitais no lugar de papel, imagens em 3D, telefones celulares e videoconferências. “Nem toda a tecnologia me entusiasma. Mas eu teria um tablet se não fosse tão caro”.

A trilogia conta a história de Angela, uma humana que se tornou imortal após ter contato com a tríade, uma super inteligência galáctica. Embora a obra seja bem completa, ainda faltava contar os primeiros anos de vida de Angela. Sua história é revelada no novo livro de Calife, publicado recentemente, Angela Entre Dois Mundos, pela editora Devir Livraria. Padrões de Contato, Horizonte de Eventos e Linha Terminal, que compõem a trilogia, lançada entre 1985 e 1991, foram também relançadas em volume único, pela mesma editora. “No Universo, quase tudo é possível. Mas fazer contato com uma super inteligência como a tríade, só seria possível se ela quisesse fazer contato conosco”, diz.

Angela Entre Dois Mundos mostra como a personagem humana – mas que nasceu e cresceu nas luas geladas de Saturno – chega à Terra, no século 25, e encontra um mundo alterado pela mudança climática, com humanos vivendo em residências aéreas, nas nuvens. O planeta é totalmente controlado pela corporação Norland. “As videopranchetas já apareciam no filme ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’. Até tinha o logotipo da IBM, que pesquisava sobre o assunto na época em que o filme foi lançado, em 1968”, diz.

Calife faz parte de um seleto grupo de autores que escrevem ficção científica hard. Alguns expoentes desse segmento são Arthur C. Clarke, de 2001: Uma Odisséia no Espaço, H. G. Wells, de A Máquina do Tempo, Isaac Asimov, de Eu, Robô, e Júlio Verne, com seu clássico 20 Mil Léguas Submarinas. Calife ganhou reconhecimento quando, no início da década de 80, Arthur C. Clarke agradeceu a ele, no livro 2010: O Ano Em Que Faremos Contato, pelas ideias dadas pelo brasileiro para a continuação da obra.

Reconhecimento internacional
À época, Calife e Clarke trocaram diversas correspondências, nas quais um comentava o trabalho do outro. “Agradeço ao Sr. Jorge Luiz Calife, do Rio de Janeiro, por uma carta que me fez pensar seriamente numa possível continuação de ‘2001: Uma Odisseia No Espaço’”, escreveu Clarke, na parte do livro dedicada aos agradecimentos. “Mandava um postal do Rio de Janeiro e ele me retornava com um do Ceilão. Se eu tinha alguma dúvida, perguntava para ele e ele respondia”, conta Calife. “A ideia das residências aéreas, que está em meu livro, foi sugestão dele”, revela.

Arthur Clarke talvez tenha sido otimista demais com suas previsões, ao acreditar que o mundo seria muito diferente em 2001. Mas Calife defende o colega. “O futuro previsto por ele aconteceria se a União Soviética tivesse colocado homens na Lua em 1968 ou 69”, explica. “Se isso tivesse acontecido, os americanos teriam construído bases lunares e enviado homens a Marte. Tudo isso foi abandonado quando a União Soviética caiu”.

Hoje, Calife mora em Pinheiral, município de 22 mil habitantes, no interior do Rio de Janeiro. A decisão de viver numa cidade pequena, tomada na década de 90, foi motivada pela violência na capital carioca. “Em Pinheiral, eu tenho uma visão do céu que não se consegue nas grandes cidades. Outro dia, vi a Estação Espacial Internacional, deslizando como uma grande estrela no crepúsculo. Ela é tão brilhante quanto Vênus”. Quando Calife começou a escrever seus livros, a internet ainda era um projeto militar. O autor diz que há informação em todos os lugares. É só saber procurar. “Uma das ideias do meu livro, sobre cidades verticais, são baseadas nas ideias de Paolo Soleri e de Buckminster Fuller. A primeira vez que li sobre eles foi numa edição americana da Playboy”.

Calife escreve sobre temas difíceis, mas também se dedica à literatura infantil, em obras como Onde o Vento faz a Curva, Cecília no Mundo da Lua e Rex, O Cachorro que Tinha Medo de Trovoada. “A linguagem muda. Mas o trabalho de criação de histórias e personagens é o mesmo. As crianças são mais exigentes do que os adultos”.