Grandes damas do teatro

Peças fundamentais na construção da história do teatro no Brasil, nove atrizes veteranas têm suas trajetórias sobre o palco repassadas a limpo no livro As Grandes Damas – E um Perfil do Teatro Brasileiro, da jornalista Rogéria Gomes

Redação

29 Maio 2011 | 23h37

ADRIANA DEL RÉ

Peças fundamentais na construção da história do teatro no Brasil, nove atrizes veteranas têm suas trajetórias sobre o palco repassadas a limpo no livro As Grandes Damas – E um Perfil do Teatro Brasileiro, da jornalista Rogéria Gomes (Editora Tinta Negra, R$ 45). Nele, foram compiladas as histórias de Bibi Ferreira e Eva Todor, as homenageadas, além de Beatriz Lyra, Beatriz Segall, Eva Wilma, Laura Cardoso, Nicette Bruno, Norma Blum e Ruth de Souza. A iniciativa deve ganhar desdobramento em outros dois volumes sobre o assunto: um só dedicado a atores de teatro e outro com mais um time de atrizes de primeira grandeza.

Para As Grandes Damas – E um Perfil do Teatro Brasileiro, Rogéria precisava de um aporte coerente que justificasse a escolha de suas primeiras eleitas – e a não inclusão de outras. Tinha de encontrar um recorte para que a obra não se tornasse uma enciclopédia. “Comecei pelo começo. De como o teatro chegou ao Brasil e a sustentação dada a ele pelas companhias teatrais”, diz a autora. Alinhado a esse pensamento, foram destacadas artistas que fizeram parte dessas companhias ou foram donas delas.

Como todas ainda estão na ativa, os textos que relatam suas respectivas trajetórias de vida e carreira vêm em primeira pessoa. “Eu pretendia que elas próprias contassem suas histórias”, ressalta ela. Para isso, Rogéria foi ao encontro de cada uma de suas entrevistadas. Durante quase seis meses, as ouviu e produziu os textos escritos a partir do depoimento delas. A ideia inicial era ter incluído os relatos de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Mas a impossibilidade de conversar com as duas atrizes pessoalmente – por questões profissionais ou pessoais delas – fez com que a jornalista adiasse a participação de ambas para um próximo volume.

Jesuítas e teatro de revista

Atuando há 20 anos como jornalista cultural, Rogéria Gomes é uma entusiasta do teatro. E aliou seu conhecimento de causa à sua experiência como professora, para formatar um projeto com vocação literária, mas também educativa – como se propõe As Grandes Damas. “O teatro é uma arte transformadora, que faz pensar, refletir. Acho que as pessoas não gostam do que não conhecem”, diz. “Esta é uma forma do teatro chegar até as escolas, para os ensinos fundamental e médio”. Por meio de parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, o livro já será distribuído entre alunos de ensino fundamental do município do Rio. Mas a autora espera que outras prefeituras também se interessem em usar a obra em sala de aula.
Apesar de nascer com essa vocação, é uma leitura indicada também para interessados em geral no assunto.

Com auxílio de duas historiadoras, Rogéria acompanha a o avanço do teatro no Brasil, desencadeado, no século 16, pelos jesuítas e sua apropriação do teatro como ferramenta de catequização dos índios. A linha do tempo conduz até a inauguração do teatro de revista, em 1859, e, um pouco depois, para os anos 1930, quando as companhias começam a despontar, abrindo um leque de novas experimentações e linguagens. É nesse contexto que surgem, uma a uma, Bibi Ferreira, Eva Todor, Beatriz Lyra, Beatriz Segall, Eva Wilma, Laura Cardoso, Nicette Bruno, Norma Blum e Ruth de Souza. Cada qual com suas particularidades biográficas. Mas todas, sem exceção, absolutamente devotas ao palco.

Outra característica em comum, lembra Rogéria Gomes, é que as nove atrizes atravessaram a ditadura militar trabalhando. “Todas elas colocaram sua arte à disposição da democracia. Já tinham muito entendimento do que era essa arte”, afirma.