Leia o primeiro capítulo de ‘Schifaizfavoire’

Redação

17 Maio 2011 | 23h40

Como se fosse um prefácio
Prezado Senhor
José Blanco,

Ao desembarcar pela primeira vez no aeroporto de Lisboa, onde ficaria por dois anos, dei de cara com um “Aluguer”
de Táxi. Dentro do carro a filha pré-adolescente de uma amiga informou à mãe que havia dado um “linguado”. De
noite, na televisão, a “Rainha Isabel”, da Inglaterra, deu uma declaração sobre a crise no Oriente Médio. E a minha
amiga me perguntou se eu queria “feijão verde”, enquanto eu “premia o autoclismo”. Comecei a anotar as palavras que tinham significados diferentes cá e lá. Dois anos depois lancei este Schifaizfavoire – Dicionário de Português, que já chegou a mais de vinte edições. O senhor, que estava no Brasil na época, leu a primeira delas. Agora mudei de editora e
este exemplar já é da Planeta. Não é um dicionário, são pequenas crônicas em ordem alfabética. Na época, o senhor, professor e intelectual português, então diretor da respeitadíssima Fundação Gulbenkian, de Lisboa, me escreveu uma longa carta onde, entre elogios e puxões de orelha, corrigiu alguns verbetes, explicou outros. Era um calhamaço muito bem‑humorado e preciso. Fiquei orgulhoso de merecer a sua atenção. Guardei para responder. Mas o envelope sumiu. Agora, há pouco tempo, ao mudar-me de São Paulo para Florianópolis, foi com muita alegria que achei, reli e considerei que deveria publicar nesta edição da nova editora a carta com os comentários, os elogios e os puxões de orelha. E agradeço o seu consentimento. A carta, publico na página seguinte. Agradeço ao sr. por ter se debruçado sobre o meu trabalho com tanta dedicação. E peço desculpa sobre a Albânia, professor. Mas, à época, eu andava meio irritado com os portugueses, como, aliás, eles com os brasileiros, mais ainda. Foi a fase da Guerra dos Dentistas, lembra? Mas isso já tem vinte anos, voltei lá umas cinco ou seis vezes, e estamos todos nós nos sorrindo novamente. Tenho lá grandes e verdadeiros amigos. Aliás, esses vinte anos que se passaram tornaram alguns dos verbetes desse dicionário meio fora de moda, mas garanto que isso deixou o livro ainda mais fixe (gíria do começo da década de 90 que significa legal, bom). No mais, mantivemos a ortografia da época, porque, se a mudássemos, muita coisa ficaria sem sentido. Registro ainda: essa ortografia unificada, ou seja lá como a chamam, foi a atitude mais inoportuna e burra que já existiu entre as relações do Brasil e Portugal, desde abril de 1500. E foi coisa de brasileiros!!!
Abraços.
Mario Prata

P. S. Meu caro professor, não resisti: encontrei também uma
gralha (vide página 106, leitor) nos seus comentários. Nosso
querido Eça nasceu em Póvoa de Varzim e não “do Varzim”.
A carta
Prezado Senhor
Mario Prata,

No decurso da visita que fiz há duas semanas ao Brasil, foime oferecido por um amigo um exemplar do seu já famoso
Schifaizfavoire. A obra merece ser o best‑seller que rapidamente se tornou, pois é um livro muito divertido, mesmo
pelas vítimas do seu excelente humor – nós, os Portugueses. (Penso, aliás, que com os devidos ajustamentos, poderia
um autor português publicar um livro igualmente divertido para os leitores daqui, sobre os modismos brasileiros,
alguns dos quais nos dão imensa vontade de rir…). O interesse da leitura levou‑me a fazer uma análise detalhada
dos verbetes em que encontrei bastantes gralhas, confusões e mesmo erros flagrantes que, a bem de futuras
edições, resolvi apresentar‑lhe em lista anexa. Tendo em vista, sobretudo, a eventual divulgação da obra em Portugal,
parece‑me que esses lapsos, se não forem corrigidos, diminuirão a credibilidade ao livro junto ao leitor português.
Fico satisfeito por me ter sido possível responder a algumas das suas angústias quase metafísicas sobre a origem
de expressões misteriosas tais como “Pijama”, “Tirar os três”, “Trinta‑e‑um de boca” e “Varina”. Infelizmente, não
encontrei rasto da origem de “Alfacinha” e “Ardina”, que permanece totalmente desconhecida. Em termos genéricos, quero apenas fazer um comentário sobre algo que não posso de modo algum aceitar. Quando, aliás com humor pesado que contrasta com o resto, escreve que “Portugal está muito mais para Albânia que para Bahia” (pág. 95), está a pisar terrenos nitidamente perigosos. Neste contexto das aproximações e distâncias entre o Brasil e Portugal, e sem querer entrar em polêmica, limitome, como aqui se diz em linguagem judicial, a “oferecer o merecimento dos autos”, neste caso, o merecimento de um pequeno texto que li no dia 10 de Junho passado (Dia de Camões) no Real Gabinete Português de Leitura do Riode Janeiro e no qual procurei demonstrar as efetivas e permanentes pontes transatlânticas que nos unem. Dando, como dei, a palavra aos poetas brasileiros e portugueses, creio ter provado que, apesar de tudo e de todos – direi mesmo contra tudo e todos – Brasil e Portugal estão condenados a uma co‑habitação que nos está na massa do sangue. Gostaria que, depois de ouvir os poetas que citei, me dissesse francamente se acha possível imaginar o Vinícius de Moraes dialogando nos mesmos termos com um poetabúlgaro… Porque sou um dos que acreditam na existência, única na comunidade internacional, dessa entidade mítica (ou mística?) chamada Brasil‑Portugal, espero que me diga de sua justiça. Aguardando, com maior interesse, as suas notícias e renovando o prazer que tive em ler o seu livro, peço‑lhe que aceite as minhas cordiais saudações.
José Blanco, 1993

P. S. Para provar o que digo no penúltimo parágrafo, transcrevo a seguir, a título de exemplo, dois dos mais belos sonetos de amor escritos em língua portuguesa. Julgo que, depois de os reler, me dará razão.

Jorge de Sena

Amo‑te muito, meu amor, e tanto

que, ao ter‑te, amo-te mais, e mais ainda

depois de ter-te, meu amor. Não finda

com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto

sofro a traição dos que, viscosos, prendem,

por uma paz da guerra a que se vendem,

a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,

nesta invenção da humanidade inteira

que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa…

Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,

sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê‑lo

em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Atenção, leitor!
As explicações que vêm após alguns verbetes, com outra tipologia, são os comentários do professor José Blanco. Depois da primeira ocorrência, eles serão identificados pelas iniciais de seu nome, JB.

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