‘Sou reconhecido. E não precisei ser bicha, bonito nem ateu’

Nesta semana, o paulistano Nando Reis, 47 anos, lança seu novo trabalho, Bailão do Ruivão, álbum eme que elereúne canções bregas que o influenciaram, como Fogo e Paixão, de Wando. Para falar do disco, o cantor e compositor recebeu a reportagem do JT, em sua casa nova, no Pacaembu

Redação

25 Outubro 2010 | 09h05

Felipe Branco Cruz

Nesta semana, o paulistano Nando Reis, 47 anos, lança seu novo trabalho, Bailão do Ruivão. No álbum, ele reúne canções bregas que o influenciaram, como Fogo e Paixão, de Wando, e a lambada Chorando se Foi, da banda Kaoma. Para falar do disco, o cantor e compositor recebeu a reportagem do JT, em sua casa nova, no Pacaembu. Nando não mediu palavras e o bate-papo rendeu. Entre outras coisas, disse que é favorável ao aborto, ao casamento gay e à descriminalização da maconha. Falou, ainda, de política, de como é ser avô – sim, ele já tem uma neta – e dos ex-companheiros dos Titãs. “Não tenho mais contato com eles”.

De onde veio a ideia de colocar músicas bregas no novo disco?
Nesse CD, há a intenção de mostrar que não faço distinção de gêneros. Detesto música sectária, messiânica, que acha que fala a verdade. Não sou político. Eu faço música. Gravei essas canções porque as acho lindas. Elas me tocaram em momentos distintos e de formas diferentes. É uma forma de mostrar parte do meu gosto.

Se você não gosta de música “messiânica” e não é “político”, porque compôs uma canção como ‘Bichos Escrotos’, que tem forte conotação política e foi regravada nesse disco?
Minha música atual é autobiográfica e romântica. Mas ela também é extremamente política, no sentido de que ela diz aquilo que eu acho fundamental: a defesa da individualidade. Escrevi no Twitter que estou irritado com a política e recomendei a leitura de um artigo falando sobre ateísmo. Fui, ao mesmo tempo, rechaçado e aplaudido. Escrevi, por exemplo, a música Igreja há 24 anos e tenho vontade de cantá-la novamente. Hoje, medimos o valor das pessoas olhando se elas se ajoelham ou não. Sou a favor do aborto, a favor do casamento gay. Nunca poderia ser candidato. Faço parte de um pensamento minoritário.

Você é a favor do aborto?
Eu sou a favor, sim, de que mulheres não morram fazendo abortos em condições suicidas. Eu não sou contra a vida. Não sou o diabo. Sou a favor do pensamento científico, de um olhar que não dependa dos dogmas religiosos. Sou a favor do direito de escolha, da descriminalização da maconha, da admissão de que o álcool mata mais do que a droga. Sou a favor da discussão desses temas polêmicos. Parece que ser contra o aborto é ser do bem. Se você é a favor do aborto, você é do mau. Não se trata disso. Aliás, acho ridículo o Serra e a Dilma se tratarem como bem e mal. Os dois são uma merda.

São questões polêmicas…
Vamos esclarecer isso. Eu sou contra a forma como o aborto está sendo tratado nessa questão, como se houvesse assassinos de fetos e santos que protegem as crianças. Estou falando de saúde pública. De uma questão complexa, que envolve submissão, preconceito contra a mulher, abuso de crianças, pobreza. Essa é a discussão. Não sou a favor do aborto como bandeira. O aborto está sendo tratado como se fosse o tópico da Nação. É moralismo, hipocrisia.

Essa posição tem a ver com o fato de você ser ateu?
Bicho, evidentemente estamos desviando do assunto principal, que é o meu novo disco. Mas, eu não acredito em Deus. Ao mesmo tempo, tenho admiração e sou impactado pelo milagre da vida. Sou evolucionista. Se eu acreditasse em Deus, jogaria sobre Ele todas as cagadas que eu fiz na vida. Acho hipócrita quem diz que acredita em Deus e acha que pode rezar e depois fazer um monte de merda. Você tem de acertar as contas com a sua consciência. Se existe Deus, é a minha consciência.

Voltando à política, em quem vai votar para presidente?
Eu votei na Marina Silva. Mas no segundo turno, vou estar fora do Brasil, na Patagônia.

Você se irrita em as pessoas discordarem de suas opiniões?
Não. Falo o que penso, sabendo que podem gostar ou não. Não faço as coisas para agradar a ninguém. Não faço disco para vender. Faço por expressão. Sei o tipo de risco das posições polêmicas. Se eu quisesse agradar, só escreveria coisas legais. Mas não quero ser polêmico. Eu não sou o Lobão.

Para fazer esse disco, você declarou que tocar as músicas dos outros era como se livrar do fardo de conviver com você mesmo. É um fardo conviver com você?
Tenho prazer em viver. Acho um tesão estar vivo. Mas pago um preço pela maneira como vivo. Não é convencional. Não agrada a todas as pessoas. Tenho cinco filhos, me casei e gosto dessa ideia. Esse fardo é uma noção de humildade. Mas sou reconhecido como um bom músico. E para isso, não precisei colocar silicone, ser bonito, feio, bicha ou ateu. Sou a favor da diversidade. Na verdade eu queria ser o Roberto Carlos. Mas não sou o Rei. Eu sou só o Reis.

Esse novo CD é mais corajoso?
Pode ter gente que ache um disco covarde por gravar com a MTV e só ter sucessos. É corajoso porque inaugura uma coisa que nunca fiz: gravar músicas que não são minhas. Ao botar a minha voz nessas canções, eu vou ser comparado com a versão original, feita por grandes cantores. Frequentemente, sou execrado como cantor.

As pessoas acham que você não canta bem, certo?
Eu gosto da minha voz. Mas tenho noção de que eu não tenho uma extensão vocal. Não sou o Milton Nascimento, com aquela voz maravilhosa. A minha voz não é a melhor do mundo. E daí? E se um cara que não tem a melhor voz do mundo faz a obra que eu faço, os discos que eu faço e atinge as pessoas que eu atinjo? Eu não tenho a voz da Cassia Eller, mas escrevi O Segundo Sol, e ela cantou porque a minha voz fez aquela música.

Há 8 anos, você saiu do Titãs. Foi a coisa certa a ser feita?
Sim. E isso não tem nada a ver com a diminuição da importância do grupo ou do que eu fiz. Isso teve a ver com decisão pessoal.

Você ainda tem amizade com os outros titãs, de chamar para um café, um churrasco?
Isso é curioso. Esse desligamento e essa nossa não-continuidade de convivência é uma forma de respeito. O fato de eu não chamar o Branco Mello para um churrasco não significa que eu não tenha ele como amigo. Eu não preciso de nenhuma picanha para dizer que eu os amo. Mas não encontro mais com eles. Só se for por acaso, em eventos de música, por exemplo.

Você é avô de uma menina de 6 meses. Como é a vida de avô?
É igual à vida de neto. Eu pretendo ser bisavô, trisavô. Só não pretendo a imortalidade porque uma hora enjoa. Mas acho natural que meus filhos tenham filhos. A minha neta se chama Luzia Aurora.

E o Theodoro, o pai da Luzia, participa do seu novo disco.
Tocar com o Theodoro dá sentido a tudo o que eu fiz na música. É emocionante. Admiro a música dele. Fiquei super emocionado. Convidei ele, claro, porque ele é meu filho. Sou fã dele.

Há coisas que você fez no passado e que não gostaria que seus filhos e netos soubessem?
Claro. Eu não sou um santo. Tenho cinco filhos. Sou um homem pouco convencional, perturbado, emotivo. Fiz coisas que não gostaria de ter feito, que magoaram pessoas. Não posso apagá-las. Não me reprimo e não sofro. Posso mostrar para eles que sou esse pai maravilhoso, que sobe no palco, ou que sou uma bosta de pai, que pode ter feito uma cagada. Mas prefiro não falar mais sobre isso. Não queria nem responder a essa pergunta.