Novo disco de Gloria Estefan: para latinos dançarem

O novo trabalho da cubana Gloria Estefan, Miss Little Havana, é seu 26º álbum de estúdio e, mais do que nunca, traz canções para não deixar ninguém parado misturando ritmos cubanos e música eletrônica

Redação

23 Novembro 2011 | 23h56

FELIPE BRANCO CRUZ

A cubana Gloria Estefan, de 54 anos, ficou conhecida em todo o mundo depois que sua música Reach marcou o encerramento dos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996. Até chegar a esse ponto, porém, Gloria sofreu junto com sua família por serem imigrantes do país caribenho em Miami. Aos dois anos, foi levada pelos pais aos Estados Unidos. “Chegamos num apartamento que tinha uma placa que dizia: ‘Proibido crianças, animais e cubanos’”, lembra a cantora.

“Hoje, tenho cidadania americana. Fui criada aqui”, diz ela, em Miami, de onde concedeu entrevista por telefone ao JT. A mistura de ritmos latinos à música eletrônica a consagrou, e a cantora já vendeu mais de 90 milhões de álbuns em todo o mundo. Seu novo trabalho, Miss Little Havana, é seu 26º álbum de estúdio e, mais do que nunca, traz canções para não deixar ninguém parado.

Seu novo disco mistura música eletrônica com sons cubanos e latinos. Estou certo?
Sim, está. Não só música cubana. A canção Wepa, por exemplo, tem um núcleo de merengue da República Dominicana. Temos também um pouco de cumbia e conga. O que eu acho legal disso é que tem muita sensibilidade. Eu trouxe um percussionista que ajudou a misturar bem os dois mundos. Criamos algo muito feliz, e também canções de amor. Ficou fantástico.

O disco é para as pessoas dançarem muito nas baladas?
Não só nas baladas. A conga é para dançar até se acabar e ela faz parte da vida das pessoas há 50 anos na América Latina. Acho que as pessoas vão dançar sem preocupar com os problemas da vida. Meu trabalho é fazer as pessoas felizes, para elas se esquecerem dos problemas.

‘Miss Little Havana’ é uma homenagem a Havana ou aos cubanos que vivem no bairro homônimo, em Miami?
Não falo de Cuba, mas sim da comunidade em Miami. Little Havana é para onde fui quando saí de Cuba, ainda bebê. No verão, nós tomávamos sorvete por lá. Morávamos muito perto do estádio Orange Bowl. Esse é o lugar onde vivi. Mas agora Little Havana tem várias nacionalidades diferentes; Nicarágua, El Salvador, Brasil. É o primeiro bairro latino de Miami. Representa minhas origens, de onde eu vim. O também representa, de certa forma, o que é Miami: uma mistura de culturas. Faço isso de forma natural, porque já gravei músicas assim antes.

Na sua opinião, a vida dos latinos nos EUA está melhor?
Não posso falar por ninguém. Por isso vou falar de mim, que sou latina e cresci em Miami. Definitivamente está melhor. Quando chegamos, minha mãe conta que foi alugar um pequeno apartamento e havia uma placa: “Proibido crianças, animais e cubanos”. Os cubanos ajudaram a cidade a crescer. Temos muitos milionários em Miami. Os latinos ajudaram a moldar a cultura da cidade. Miami recebe muitos europeus em férias. É um lugar único.

Você vê uma aproximação entre Cuba e Estados Unidos no governo Obama?
Será que vai acontecer? Pessoalmente acho que as pessoas de Cuba deveriam poder viajar livremente aos Estados Unidos. Muitos têm família aqui. Nós estamos vendo mudanças e tudo o que os dois governos fizerem para melhorar a vida deles, será bom. Os cubanos não sabem o que não lhes falta, porque o acesso à informação é censurado pelo Estado e eles não sabem direito como é o mundo sob outro tipo de governo. Mas, ao mesmo tempo, acho que é uma boa ideia fazer negócio com eles, mas sem um governo ditatorial. Seria mais inteligente para o governo cubano perceber que eles têm de mudar.

Sua relação com o Brasil também é muito estreita. Você já gravou com Alexandre Pires.
Nós fizemos duas versões de Sou Toda Para Você e de Se Tenho que te Perder. Eu amo músicas do Brasil. Eu tenho muitas no meu iPod. Gosto dos clássicos, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Simone, Gal Costa. Amo bossa nova e samba. Fiz uma versão em espanhol de Lança Perfume da Rita Lee, que se chama Baila Conmigo. Em 1982, gravei o álbum Rio, que é um tributo. Acredite: eu adoro a música do Brasil. É muito rica, a percussão é única.

Em 2005 e 2006, você lançou dois livros infantis. Como foi escrever para crianças?
Minha mãe é professora e eu sempre quis colocar coisas positivas nas minhas músicas. Então, fazer um livro como esse foi muito legal para atingir crianças bem jovens. Sou uma escritora, escrevo 30 páginas antes de fazer uma música. Nos livros (As Mágicas e Misteriosas Aventuras de uma Bulldogue Chamada Noelle e O Tesouro de Noelle, na tradução livre) eu falo sobre minha cadela, e fui inspirada por coisas que aconteceram de verdade com ela. As crianças aprendem a moral da história com Noelle.

Tem planos de vir ao Brasil?
Sim, claro. Já estamos fazendo contatos e para mim seria ideal fazer shows aí em 2012.

Crítica do álbum:

Um álbum em inglês, com expressões e alma latinas
Wepa, primeiro single de trabalho do novo álbum de Gloria Estefan, Miss Little Havana, reflete bem a mistura cultural promovida pela comunidade cubana e latina que vive em Miami, no bairro homônimo ao disco. Com uma forte pegada eletrônica, a canção tem as batidas e o ritmo latinos e tem a voz de Gloria em inglês, mas repleta de expressões em espanhol. De certa forma, a música resume o que o fã encontrará no disco.

O álbum será lançado oficialmente no Brasil na próxima terça-feira, dia 29, mas está em pré-venda pela internet em lojas online como Fnac, Saraiva e Submarino. Quase todas as músicas já podem ser escutadas em sites como YouTube e MySpace. Este é o 26º álbum de estúdio da cantora. Desde 2003, com Unwrapped, ela não lançava nada novo cantado em inglês.

Mas aqui, Gloria Estefan também solta a voz em espanhol. Hotel Nacional, Make My Heart Go entre outras, contêm várias frases em seu idioma nativo. As canções, no entanto, estão bem longe do estilo romântico e arrebatador de Reach, música icônica que fez Gloria famosa em todo o mundo nos anos 90.

Little Miss Havana está próximo do atual som da colombiana Shakira em Sale el Sol. Gloria, aliás, já compôs para a colega latina e também para Jennifer Lopez.