Rush: quando o rock vira religião

Hoje o Rush retorna ao Brasil depois de oito anos. Se o clima em 2002 era de consagração (comprovados pelo DVD Rush in Rio, que marcava a volta triunfal da banda aos palcos depois de 5 anos), dessa vez o sentimento é de saudosismo

Redação

08 Outubro 2010 | 13h56

rush_caricapor Diogo Salles

Hoje o Rush retorna ao Brasil depois de oito anos. Se o clima em 2002 era de consagração (comprovados pelo DVD Rush in Rio, que marcava a volta triunfal da banda aos palcos depois de 5 anos), dessa vez o sentimento é de saudosismo. Por isso, houve uma alteração na agenda da banda em 2010. Sempre acostumados a gravar um álbum e excursionar, o trio canadense percebeu que, ao final da turnê, por mais extenuado que estivesse, também estava mais afiado do que nunca. O plano então foi desenhado da seguinte forma: gravar duas novas músicas e deixar incompleto o álbum, que já tem título: Clockwork Angels. Depois, fazer uma turnê menor e então voltar ao estúdio, em plena forma, para finalizá-lo. O gancho perfeito para essa “turnê-celebração” — batizada de Time Machine — é o aclamado disco Moving Pictures, que completa 30 anos de seu lançamento.

O show de três horas de duração é dividido em duas partes mais o bis. Para compor o repertório, além dos clássicos de Moving Pictures (tocado na íntegra), músicas de diferentes fases da banda são trazidas, como Time Stand Still, Stick It Out e Subdivisions, além das duas novas composições, BU2B e Caravan. Os clássicos anteriores a Moving Pictures, como 2112, La Villa Strangiato e Working Man, ficam para o final do show.

O Rush tem seu início em 1969 quando Geddy Lee (filho de judeus que escaparam do Holocausto) e Alex Lifeson (filho de emigrantes da ex-Iugoslávia, também fugidos da guerra) se encontram na escola em Toronto (Canadá) e se juntam a John Rutsey. Mas é só com a entrada do baterista Neil Peart, já no segundo disco Fly By Night (1975), que a banda começa a moldar um som que até hoje a crítica não conseguiu encaixar em nenhum gênero musical específico.

Com Peart, estava fechado o triunvirato. Leitor voraz de ficção científica desde criança, e hoje autor de diversos títulos (que variam de romances a livros contando suas viagens de moto pela América profunda e África), ele trouxe sua bagagem literária e talento para a narrativa, dando uma face intelectual à banda. As letras exploravam desde questões filosóficas a contos Sci-fi. E musicalmente, Peart trouxe solidez ao trio, transformando-o numa unidade, com personalidade própria e som único — coisa que os fizeram ser amados e odiados na mesma proporção.

Ao contrário da grande maioria das bandas (que trocam baixistas, guitarristas e até vocalistas sem sacrifícios), as três partes do Rush se tornaram indissociáveis. A tragédia pessoal Peart — que perdeu a filha num acidente automobilístico em 1997 e a mulher para o câncer em 1998 —, os colocou em quarentena por tempo indeterminado e comprovou a tese. Alex Lifeson chegou a dizer, em entrevista, que a banda correu sério risco de acabar: “não poderíamos continuar sem Neil. Nos tornaríamos um pastiche de nós mesmos”.

Outro aspecto que distingue o Rush de outras bandas é a polêmica voz de Geddy Lee. Ao tentar emular Robert Plant no início da carreira, seus agudos — ora estridentes, ora esganiçados —, faziam dele um alvo fácil para críticas (que o diga Ray Danniels, empresário da banda, que até hoje não demonstra morrer de amores por sua voz). Com o tempo, Lee foi encontrando outras regiões para trabalhar sua voz e a polêmica foi perdendo força. Mais bem postados, seus vocais se consolidaram como parte fundamental na sonoridade da banda.

O próprio Geddy Lee costuma dizer que o que move o Rush é a capacidade de se desafiarem musicalmente a cada álbum, sem medo de arriscar. A integridade artística sempre ficou à frente das demandas dos fãs ou das gravadoras. E a estrutura das músicas (com pesquisa de timbres, texturas, harmonias e melodias), junto à composição das letras sempre ficaram à frente dos egos e das ambições pessoais. Nesses 40 anos de estrada, sempre se mantiveram inquietos, experimentando praticamente todos os elementos em sua música — seja ampliando a abordagem do disco anterior, seja mudando completamente a rota. Tanta personalidade rendeu alguns maus bocados ao Rush, como no terceiro disco Caress of Steel (1975), quando entraram em conflito com a gravadora. Ou na década de 80, quando foram bastante questionados, ao abraçar o reggae, ska, pop, new wave e abusaram dos teclados, afastando boa parte da base de fãs formada na década anterior.

Eis a grande diferença em relação à maioria das bandas de rock: o Rush não é uma banda de artistas, é uma banda de músicos. Músicos cerebrais, estudiosos (quase geeks), que devolvem ao showbizz os olhares de desconfiança e retribuem aos fãs essa crença inabalável em sua música. O documentário Beyond the Lighted Stage, recém chegado ao mercado, investiga todas essas particularidades. Ao se mostrarem como pessoas comuns, o trio desconstrói a imagem mitológica criada no imaginário dos fãs mais radicais, se aproximando ainda mais deles.

Um bom exemplo do quão doentio pode se tornar um fã de Rush está no filme Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man), onde um homem prestes a subir ao altar procura um amigo para ser o seu padrinho de casamento. Bastante verossímil (ainda que caricato), o filme é um retrato de dois caras que constroem uma amizade onde o Rush é o elo, cantando e tocando suas músicas no porão de casa. Por mais assustador que pareça, o Rush é uma dessas bandas capazes de transformar pessoas aparentemente comuns em xiitas desequilibrados. E milhares desses devotos comparecerão em massa hoje às 21h30 no Morumbi e domingo às 20 horas na Praça da Apoteose para reafirmar essa fé, capaz de transformar rock em religião.

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