Seu Madruga é pop

Na TV brasileira com o seriado mexicano há 27 anos, Seu Madruga é até hoje um ícone da preguiça, tem rosto estampado em camisetas e ganha livro em sua homenagem

Redação

21 de julho de 2010 | 01h30

Ilustração criativa de Maurício Melo, ilustrador do livro 'Seu Madruga: Vila e Obra'

Ilustração criativa de Maurício Melo, ilustrador do livro 'Seu Madruga: Vila e Obra'

Pedro Antunes

Um é revolucionário. O outro, só preguiçoso. O barbudo fumava charutos. O magricela, cigarros. Um queria mudar o mundo, enquanto o segundo, só dormir até às 11h. Um tinha um engajamento político ativo: “o capitalismo é o genocida mais respeitado do mundo”. O outro, bom, nem tanto: “a Alemanha é um pais só… A diferença é que de um lado tomam vodca e do outro, cerveja”, explicou o segundo, sobre a Alemanha dividida na Guerra Fria.
 
Morto alvejado por tiros militares bolivianos, o argentino Ernesto Che Guevara tentava ganhar o mundo com seus ideais. Já Don Ramón, ou Seu Madruga, só pretendia continuar dando calote no aluguel – atrasado há 14 meses.
Eles morreram há anos, mas têm seus rostos estampados nas camisetas daqueles tipos antenados ou cults. Defendiam categoricamente uma ideologia e são admirados por isso. Comparar o personagem do seriado mexicano Chaves com um líder revolucionário? “Isso, isso, isso!”.

O Google está aqui para endossar: se procurar “Ernesto Che Guevara”,em páginas do Brasil, serão encontrados 163 mil citações. “Seu Madruga”, por sua vez, tem nada menos do que 207 mil.

O Chaves começou a ser gravado em 1971, no México, criado por Roberto Gómez Bolaños, o intérprete do menino que dá nome à serie. No Brasil, só chegou em 1983, no SBT. Em 1979, Ramón Valdés saiu do seriado e morreu aos 64 anos, em 1988, vítima de câncer no pulmão. Pouco mais de duas décadas depois, ele e seu personagem recebem mais uma homenagem, o livro “Seu Madruga, Vila e Obra”, do carioca Pablo Kaschner, 28 anos, jornalista e radialista.

Em 2007, o autor publicou o livro “Chaves de Um Sucesso”. “Naquele livro, o Seu Madruga tinha muito mais espaço. Percebi que devia isso a ele”, conta. “O personagem tem muito da cultura brasileira. Ele sempre dá um jeitinho de não pagar os 14 meses de aluguel que deve ao Senhor Barriga, senhorio da vila onde moram os personagens”, conta. Por falar na dívida de ‘Madruguinha’, como o próprio personagem se chama no seriado, o livro de Kaschner foi dividido em 14 capítulos, e a cada um que for lido, será quitado um mês de aluguel atrasado. De maneira bem-humorada, é contada toda a trajetória do ator, do personagem, da sua família, curiosidades e, claro, as frases memoráveis.

O próprio Kaschner lembra que teve um Seu Madruga na sua infância. “A diferença que ele se chamava Nestor, e seu problema era com bebida, não com cigarro. Quem nunca viu um tipo de Seu Madruga na rua?”. O livro tem ilustrações de Mauricio Melo, 30 anos, também um dos diretores do fã-clube Chespirito Brasil, que organizou o 2º Festival da Boa Vizinhança, realizado em abril, e reuniu 5 mil fãs: “O Seu Madruga é incrível! É um ícone pop”.

No Brasil, não há quem sofra mais com essa popularidade do que Carlos Alberto Seidl, dublador do personagem desde o piloto lançado no Brasil em 1983. Em feiras e convenções de fãs, por exemplo, ele recebe sempre o mesmo pedido: gravar mensagens de voz para secretárias eletrônicas com a voz do personagem. Ele confessa que o sucesso aconteceu “sem querer, querendo”. “Quando fomos gravar o piloto, não imaginava que seria esse sucesso. Achei tosco”, diz.

E o sucesso do personagem pode ser visto na vendas das camisetas do Madruga. No site Super Camisas, por exemplo, das mil unidades vendidas por mês, 270 são dele. “É tão pop que é como se fosse aquela imagem do Barack Obama (presidente dos Estados Unidos). Ou como o Che Guevara.”, declara Lotus Miranda, 34 anos, diretor de criação e concepção das camisetas vendidas no site.
 
Com o livro, mais uma homenagem é prestada ao Madruga. Mas antes de alguns dos mais fãs xiitas do guerrilheiro (aqueles que aguentaram chegar até aqui, claro) se enraiveçam, lembrem-se sempre de uma das pérolas madruganianas: “A vingança nunca é plena: mata a alma e a envenena”. É preciso encarar o fato: Seu Madruga é pop! 

 

Livro: Seu Madruga: Vila e Obra
Pablo Kashner
Editora Mirabolante
Preço: R$ 33

 

 Pérolas do Madruguinha:

“Devemos perdoar as ofensas… Devemos perdoar as afrontas… devemos perdoar os aluguéis atrasados”

“A vingança nunca é plena: mata a alma e a envenena”

“Eu sempre deixo as vagas de empregos para os mais jovens, e venho tomando essa nobre atitude desde os meus 15 anos!”

“Sabe o que faltou para eu concluir o curso secundário? Começar o primário!”

“Como ousa me acordar às 10 da madrugada, Chaves? E agora, o que eu vou fazer até a hora da sesta?”

“Não é uma coisa que se diga: ‘Minha nossa, mas que bom trabalho'”

“Então, Senhor Barba, vamos tirar a barriga?”

“Bom, a Alemanha é um pais só… A diferença é que de um lado tomam vodca e do outro, cerveja” (Diz o professor Madruga, definindo as diferenças entre Alemanha Ocidental e Oriental em Guerra Fria)

 

Produtos do Madruga:

– Cartaz da Turma do Chaves com direito a careta de Seu Madruga (42 cm x 29,7 cm, em papel couchê).
Preço: R$ 10,00
– Chaveiro do Madruga (versões com fundo azul, preto e branco)
Preço: R$ 2,00
Onde comprar:  www.camisetaspunch.com.br

– Camiseta de Che Madruga (disponíveis nas versões masculina feminina, em vermelho,  preto, verde, azul, branco e amarelo)
Preço: 34,90
– Camiseta “Deus Ajuda Quem Cedo Madruga” (disponíveis nas versões masculina feminina, em vermelho,  preto, verde, azul, branco e amarelo)
Preço: 34,90
– Madruga Quaker (disponíveis nas versões masculina feminina, em vermelho,  preto, verde, azul, branco e amarelo)
Preço: 34,90
Onde comprar: www.supercamisa.com

– Camiseta Madruga dos Mortos (versão masculina e feminina)
Preço: R$ 55
Onde comprar: 
El Cabriton. Rua Augusta, 2.008. 3081-6130.
www.elcabriton.com.br

– Camiseta Madruga, o Pensador (disponível na cor zinza)
Preço: R$ 28
Onde comprar: www.lojadochaves.com.br