‘Tenho filhos de 12 a 50 anos. Aprendi a língua deles’

Mauricio de Sousa conquistou o País com seus personagens divertidos e marcantes, como Cebolinha e Mônica. O escritor e cartunista de 75 anos recebeu o JT para uma conversa na sala de sua empresa, na Lapa, zona oeste da cidade

Redação

08 de maio de 2011 | 23h35

Escritor e desenhista Mauricio de Sousa em entrevista esclusiva (Foto: Evelson de Freitas/ AE)

Escritor e desenhista Mauricio de Sousa em entrevista exclusiva (Foto: Evelson de Freitas/ AE)

TATIANA PIVA
Seu pai escrevia novela de rádio. A mãe, poesias. O avô contava lorotas. A avó, histórias da carochinha. E Mauricio de Sousa também encontrou uma maneira de contar suas histórias. Como não levava jeito, apelou para os quadrinhos. Acabou conquistando o País com seus personagens divertidos e marcantes, como Cebolinha e Mônica, e fazendo amigos famosos, como o ex-presidente Lula, o jogador Ronaldinho Gaúcho e Pelé. O escritor e cartunista de 75 anos recebeu o JT para uma conversa na sala de sua empresa, na Lapa, zona oeste da cidade.

Como foi sua infância?
Minha infância ainda não terminou. Nasci em Santa Isabel, vivi em Mogi das Cruzes. Família de classe média. Toda a família morava em três quarteirões. Toda semana na minha casa aconteciam saraus, reuniões de artistas, rodas de chorinho. Uma vez, chegou tanta gente que não cabia. Daí, fomos para uma grande funerária da esquina. Ficamos tocando e cantando no meio dos caixões.

Como descobriu o desenho?
Aos 18 anos, eu era repórter policial. Era uma época difícil da política no País. Fui cobrir greves, passeatas. Ficou chato. Certo dia, nessa época, fui para casa e resolvi desenhar o meu primeiro personagem, o cachorrinho Bidu, em 1959. Pedi demissão do cargo de repórter e passei a ser desenhista. Depois, criei o Cebolinha, o Piteco. E fazia três tirinhas por dia para o jornal. Então, tive de contratar um auxiliar. Criei mais uma tira e tive de contratar mais um. Hoje, tenho mais de 200 desenhistas. A maior parte dos personagens de sucesso criei naquela época.

Foi quando lançou a primeira revista da ‘Turma da Mônica’?
Sim. Ali, tive a base para começar todo o processo. Tudo que faço hoje, planejei lá atrás. São mais de 50 anos de carreira.

Como cria os personagens?
Cada criança é um grande personagem em potencial. Acho que o Marcelinho (seu filho caçula, de 12 anos) poderia virar um personagem. Ele nasceu com um chip diferente. É politicamente correto. Fecha a torneira, faz a lição, se veste sozinho, chama atenção de quem faz coisas erradas. Ele seria o ‘Marcelinho, certinho’ e ia encher o saco da Turma da Mônica. Mas ele não aceitou esse personagem.

Então, ele não tem personagem? Peguei uma vertente das características dele, agora que está na moda falar de economia. Ele é uma criança que não gasta demais. Dia desses, fomos ao shopping, Eu estava precisando de um blusão azul. Entrei numa loja. “Pai, para!Essa loja é de grife. Aqui é tudo mais caro. Se você for na loja tal é cinco vezes mais barato”. E eu: “Mas filho a qualidade não é boa”. E ele: “Então compra cinco”.

O que é ser pai de 10 filhos?
Eu trabalhava muito em casa. Meus personagens foram baseados neles. Tenho quatro filhos do primeiro casamento, as gêmeas do segundo, três da Alice (sua atual mulher), mais um de uma relação que tive quando me separei da Alice. Mas depois eu e ela voltamos. Eu via a Mônica (filha mais velha dele, 50 anos) segurando o coelhinho dela.

Gosta muito de crianças?
Acho que sou apaixonado por casamento (risos). Ninguém pode ficar sozinho. O homem tem de fazer bonito pra mulher.

E como foi ficar separado sete anos da Alice e depois voltar?
Ninguém nasce com um manual. A gente vai aprendendo. Chegar a se separar não é nada agradável. Eu e a Alice falamos a mesma língua. Pra mim, a gente nunca se separou de verdade.

Por que você diz isso?
Mesmo separados, nós nos víamos todos os dias (Alice é diretora da Mauricio de Sousa Produções). Ela é durona. Até convencê-la a reatarmos foi difícil. Aluguei uma casa a 5 minutos da dela. Toda hora eu estava lá. Ela me perguntava: “O que você está fazendo aqui? A gente está separado”.

E como você conseguiu convencê-la a voltar?
Foi de tanto insistir. Foram sete anos batendo na mesma tecla. A gente se via na empresa. Eu ia na casa dela quase todos os dias.

Quais filhos trabalham com você e o que cada um deles faz?
A Mariângela trabalhava no arquivamento. A Mônica é diretora comercial. A Magali não trabalha comigo, mas é uma escritora infantil de mão cheia. O Maurício, na área de computação. A Vanda, em projetos especiais. A Valéria, na área internacional. A Marina, em avaliação de roteiros. O Mauro assumiu o teatro e o circo. O Maurício está na área de administração musical e atualmente faz um curso em Los Angeles. Estou preparando o terreno pro pessoal. Tudo aconteceu naturalmente. Eles frequentam a empresa e começam a se encaixar no que gostam. Mas acho bom eles saberem o que está acontecendo na empresa, os planos, realizações, problemas.

Algum filho pode te substituir nos desenhos?
A minha sucessora na arte sem dúvida é a Marina (24 anos). Ela faz rascunho de capa de revista desde os 7 anos. Alguns já foram publicados e ela foi paga pra isso. Aliás, cadê esse dinheiro? (ele grita para a filha, que acabara de chegar). “Acho que gastei em chiclete”, responde Marina, sorrindo.

Você segue alguma religião?
Sou de família católica, minha avó era espirita, tenho amigos evangélicos. É uma bela mistura. Sou católico budista.

Suas histórias são politicamente corretas. De onde vem isso?
Tenho filhos de 12 a 50 anos. Aprendi a falar a língua deles. Na década de 80, o pessoal queria violência nas minhas histórias e eu não quis, perdi mercado. Agora estamos na moda, porque histórias sem violência estão em alta.

Em janeiro, uma garota ficou famosa num vídeo da Internet no qual estava vestida de Magali. Você foi contra. Por quê?
Existem muitos vídeos no qual bailarinos se vestem com nossos personagens. Mas naquele caso a televisão (o programa Fantástico) botou muito pra cima. Quase que endeusou uma forma de usurpar direitos autorais. E a gente tem muito cuidado com isso. Temos mais de 2 mil produtos. Cerca de 3% do nosso faturamento é gasto em registros de marcas e patentes, advogados, ações para brecar pirataria, vigilância. Existe cuidado e custa caro manter o respeito.

Vocês estão com um espetáculo circense em cartaz. Por que resolveram investir nessa área?
Eu estou adorando o circo. Entrei e não vou sair mais. Meu pai trabalhou em circo. Eu era bilheteiro de vez em quando. Já adorava desde criança. O circo teve declínios, sucessos, vai e vem. Hoje, com a tecnologia, comunicação e com o marketing, você pode fazer o circo virar um grande negócio. É mais uma plataforma. Em parceria com Academia Brasileira de Circo, gastamos R$ 1,8 milhão para fazer este espetáculo.

Em quem você votou para presidente da República?
Não sei!(risos) Prefiro não falar. A Dilma (Rousseff) está elevando o nível do governo, com mulheres na direção. Elas têm mais sensibilidade. Não sou ligado a partidos.

E sua amizade com o Lula?
Fiquei amigo dele antes de ele ser presidente. Logo que o conheci, houve uma química boa. Um dia, estava na estrada indo para o meu sítio e recebi um telefonema dele. Quase perdi a direção. O presidente ligou diretamente para mim. Sou amigo do Lula independente de qualquer coisa. Gosto dele.

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