Um Gullar íntimo e revelador

Aos 80 anos, autor debruça-se sobre própria arte em ‘ Em Alguma Parte Alguma’, livro ganhador do Jabuti em que usa a mesma verve poética para jasmins e finitude

Redação

27 de dezembro de 2011 | 00h32

GILBERTO AMENDOLA

Poesia não é competição. Chamar Ferreira Gullar de ‘o melhor’ ou ‘o mais representativo’ poeta vivo brasileiro não acrescenta nada – é, como ensina a sabedoria popular, “chover no molhado”. Para além dos títulos, adjetivos, premiações e Jabutis, o que torna Gullar especial é a forma como ataca a realidade, o jeito com que descasca, bagunça e rearranja o caos do seu ofício e do mundo.

Depois de 11 anos sem publicar, Gullar aparece com Em Alguma Parte Alguma (Ed. José Olympio), uma reunião nada aleatória de 58 poemas. Quem estiver procurando a mesma voz de clássicos como A Luta Corporal, Dentro da Noite Veloz e Poema Sujo vai ouvir outro sussurro, muito mais íntimo e, portanto, revelador (Por isso o poeta tem que falar baixo/baixo quase sem fala em suma/mesmo que não se ouça coisa alguma, trecho do poema Falar).

Aos 80 anos, Gullar parece se debruçar sobre a sua própria arte, parece querer entender (e revelar) as engrenagens da própria poesia. No poema que abre o livro, Fica o Dito Por Não Dito, o poeta flerta com a angústia da página em branco – vencendo o embate, que de tão repisado transformou-se em clichê, com elegância e talento (O poema antes de escrito/não é em mim/mais do que um aflito silêncio/ ante a página em branco).

Nos versos de Desordem, Gullar oferece a resposta para aquela pergunta que ele mesmo já deve ter respondido centenas de vezes: “O que é a poesia”? (Meu assunto por enquanto é a desordem/o que se nega à fala/o que escapa ao acurado apuro do dizer…). Ao escrever que o assunto dele é aquilo que “escapa ao acurado apuro do dizer”, Gullar cria mais uma daquelas definições cujo destino é virar epígrafe ou citação na boca de poetas, leitores e estudiosos.

Gullar trata com a mesma verve poética o gato que espreguiça em seu sofá, o cheiro do jasmim, a complexidade uma mosca (Um inseto é mais complexo que um poema/Não tem ator/Move-o uma obscura energia/ Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica), uma aranha no meio de um dicionário, o osso da própria perna (o perônio), a formação das estrelas, o universo e a finitude. A inevitabilidade da morte está lá em muitos dos seus versos – mas sua presença nunca traz tristezas ou rompantes de dor. Gullar trata seus temas de uma forma agridoce. Por vezes com sabedoria, outras vezes com a curiosidade de quem observa alguém ou alguma coisa pela primeira vez.

Em Alguma Parte Alguma, Gullar também bebe da fonte de outros autores. É possível identificar um pouco de Drummond em O Que Se Foi (O que se foi se foi/Se algo ainda perdura/ é só a amarga marca/na paisagem escura) e também em Dois Poetas Na Praia (É carnaval/ a terra treme: um casal de poetas conversa/na praia do Leme). Gullar também faz referência a Jorge Luis Borges – em um poema cujo tema é o mesmo pelo qual o argentino dedicou bons momentos. Em O Duplo, Gullar diz: “Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu/que se apossou do que eu vi/ do que fiz/do que eu era”.

O poeta oferece uma pequena joia tropicalista em O Jasmim, daqueles que ficariam bem em música de Caetano Veloso: “Tudo isto para dizer que ontem à noite/arranquei flores de um jasmineiro/no Flamengo/ e vim com elas – um lampejo entre as mãos –/ pela rua/ sorvendo-lhe o aroma selvagem/ enquanto foguetes Tomahawk caíam sobre Bagdá”.
Gullar também faz poesias para serem sorvidas enquanto foguetes Tomahawk caem em alguma parte alguma.