Um outro olhar sobre a ditadura

Quando decidiu lançar seu olhar sobre esse período – o qual ele próprio vivenciou na juventude – em seu novo filme Cara ou Coroa, que estreia hoje (dia 7), o cineasta Ugo Giorgetti queria mostrar, sim, os dois extremos dessa engrenagem. No entanto, sob a ótica de “que as pessoas são mais complexas” e que, dentro dos dois núcleos, existiam as próprias divergências de ideias e ideais.

Redação

06 de setembro de 2012 | 22h30

ADRIANA DEL RÉ

De tempos em tempos, o cinema brasileiro volta-se para um dos períodos mais sofridos da nossa História. Os anos de chumbo da ditadura militar, entre 1964 e 1985, já foram abordados sob diferentes ângulos, em filmes como Pra Frente Brasil (1982), de Roberto Farias; O Que é Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto; Dois Córregos (1999), de Carlos Reichenbach; O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger; entre tantos outros.

Pelo enfrentamento ideológico travado àquela época entre representantes de direita (governos militares) e de esquerda (opositores ao regime vigente) – e por toda a violência que envolveu esse embate –, a ficção inspirada nos fatos históricos, não raro, criou personagens maniqueístas. Os benfeitores “comunistas” contra os maléficos membros do Exército, numa luta entre o bem e o mal.

Quando decidiu lançar seu olhar sobre esse período – o qual ele próprio vivenciou na juventude – em seu novo filme Cara ou Coroa, que estreia hoje, o cineasta Ugo Giorgetti queria mostrar, sim, os dois extremos dessa engrenagem. No entanto, sob a ótica de “que as pessoas são mais complexas” e que, dentro dos dois núcleos, existiam as próprias divergências de ideias e ideais.

Assim sendo, um diretor de teatro, como João Pedro (Emilio de Mello), um dos personagens centrais de Cara ou Coroa, podia ser um militante, mas não gostava de ver seu direito de se expressar artisticamente em sua peça de teatro tolhido pelo Partido Comunista, que financiava a montagem e exigia que esta passasse uma mensagem política à plateia. “Nesses embates, muita gente de esquerda se afastava da esquerda”, lembra Giorgetti. Podia haver ainda um general na reserva, como o de Walmor Chagas no filme, convidado pelo alto escalão do Exército a voltar à ativa e se juntar à causa, mas que declinou do pedido por discordar das torturas cometidas nos porões da ditadura.

O cineasta deu também um passo além, ao retratar uma camada da população, de cidadãos comuns, que não participava ativamente do enfrentamento, mas que, no final das contas, acabava pendendo para um lado ou para o outro. No filme, dentro desse contexto, está o jovem casal Getúlio (Geraldo Rodrigues), irmão do diretor João Pedro, e Lilian (Julia Ianina), neta do general vivido por Walmor.

Caminho sem volta
O ano é 1971. Cidade de São Paulo. Longe de serem engajados politicamente, Lilian e Getúlio são levados a uma tomada de decisão quando um representante do Partido pede a colaboração de João Pedro para esconder dois perseguidos políticos, interpretados por Eduardo Tornaghi (que já trabalhou com Ugo Giorgetti em O Príncipe, de 2002) e Danilo Grangheia. Afogado em problemas pessoais e dívidas, João Pedro não quer se indispor com os “financiadores” e pede ao irmão que o ajude, escondendo os dois na casa da namorada, que mora com o avô general.

Meio que por impulso, meio que se sentindo obrigados a fazer algo pelo País, mesmo que com um pequeno gesto, Getúlio e Lilian embarcam nessa aventura camicase. A partir do momento que os fugitivos estão instalados no sótão do casarão do general, o caminho é sem volta. E a tensão aumenta – inclusive para o espectador – a cada minuto, como se um desfecho trágico iminente estivesse à espreita na cena seguinte. A sensação que paira nem é a de se o general vai descobrir os dois, mas quando isso vai acontecer.

Giorgetti conta que a ideia de Cara ou Coroa surgiu justamente da conversa com um amigo, que lhe contou que ele próprio chegou a esconder um fugitivo em sua casa, mas que nunca soube se seus pais souberam ou não do fato.
Para os jovens protagonistas, significaria essa decisão um rito de passagem da adolescência para a fase adulta? Tanto o diretor quanto os atores Geraldo Rodrigues e Julia Ianina, que dão vida ao casal, acreditam que sim. “Getúlio toma tal atitude, ainda que com medo, pensando no que terá de enfrentar se for pego. Como os adultos enfrentavam”, avalia Geraldo, que fez parte do elenco de Linha de Passe, de Walter Salles. “Vejo-os se tornando adultos e tomando atitudes que têm uma consequência”, completa Julia, que está em cartaz em São Paulo com a peça Rabbit, no Teatro Eva Herz.

Ainda no elenco, destaque para as grandes interpretações do já citado Walmor, que dá força ao personagem sem vestir uma vez sequer a farda, e para Otávio Augusto, como tio José, simpatizante do político Paulo Maluf, reacionário até o último fio de cabelo – e um homem de bom coração.

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