Um trago histórico

No conto O Bar dos Cento e Tantos Dias, o escritor Marcos Rey (1925 - 1999) descrevia um publicitário desempregado que passava os dias numa mesinha de rua de um bar no centro da cidade. Em determinado momento da narrativa, o homem sentenciava: “Com um pouco de concentração e paciência, se pode ver os mortos passarem”

Redação

06 de fevereiro de 2011 | 23h30

GILBERTO AMENDOLA

No conto O Bar dos Cento e Tantos Dias, o escritor Marcos Rey (1925 – 1999) descrevia um publicitário desempregado que passava os dias numa mesinha de rua de um bar no centro da cidade. Em determinado momento da narrativa, o homem sentenciava: “Com um pouco de concentração e paciência, se pode ver os mortos passarem”. Impossível tomar um chope, confortavelmente instalado nas cadeiras de vime do Paribar, na Praça Dom José Gaspar, e não pensar nesta passagem do conto de Marcos Rey – que foi escrito tendo o bar em questão como cenário. “Recebemos clientes antigos, dos anos 60 e 70, todos os dias. São muitas recordações neste lugar. Quem não bebia muito ainda está vivo”, diz o maître José Oliveira, 66 anos, que trabalhou no Paribar de 1967 a 1980. Fundado em 1949 (embora existam versões conflitantes sobre sua inauguração – durante algum tempo dizia-se que o local teria sido aberto entre 1942 e 43), o Paribar teve sua gênese no navio que, no final da década de 40, trazia para o Brasil a família Ducco, que fugia da
Itália por causa dos desdobramentos da 2ª Guerra Mundial.

Embora já oferecesse boa comida italiana, os primeiros anos da família Ducco no comando do Paribar (que significa ‘Pastifício, Ristorante e Bar’) não foram de sucesso. O negócio só “virou” quando Franco Zanuzo foi contratado como gerente. Foi ele quem decidiu colocar mesinhas nas calçadas, promover uma espécie de happy hour (ainda que não tivesse esse nome) e caprichar na oferta de uísque escocês. Com as novidades, vieram os clientes diferenciados, os intelectuais, escritores, políticos e boêmios. Sabe-se que Marcos Rey não saía de lá. Sérgio Milliet, que era diretor da Biblioteca Municipal (que ficava na mesma praça) e crítico literário do Estadão, também batia ponto no local. Entre os muitos artistas que figuram na lista de clientes assíduos, estão os cantores Caetano Veloso e Roberto Carlos.

A fama do bar cresceu tanto que algumas lendas foram criadas. Tem quem jure de pé junto (mas não prove) que Ernesto Che Guevara tomou um uisquinho no Paribar – justamente quando esteve no Brasil, em 1961, para receber das mãos do então presidente Jânio Quadros a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Mais factível é a presença de Mick Jagger e Keith Richards no bar. Eles teriam frequentado o lugar em entre 78 e 79, período em que estavam em São Paulo e hospedados no Hotel Jaraguá, na mesma região do Paribar.

Mas o tradicional estabelecimento sumiu com essa São Paulo idílica. A decadência do Centro e maus negócios feitos por Zanuzo (que de gerente passou a ser o dono da casa) fizeram com que o bar fechasse suas portas em 1983. Outra lenda dá conta de que uma vigília etílica foi realizada durante a semana que antecedeu seu fechamento. Na década de 80, o sonho acabou. Para o centro da Cidade e para o Paribar. Era o fim.

Um novo começo
Agora, tem início um novo capítulo da história do Paribar, cheio de acasos e reviravoltas do destino. Em 2006, o administrador de empresas Luiz Eduardo Pacheco Campiglia Filho, 39 anos, desiludia-se com o terceiro setor. Ele, que atuava em uma ONG no Vale do Ribeira, começou a perceber que os meandros da política transformavam seu idealismo em algo que ele preferia não compactuar. “Meu sogro sugeriu que eu abrisse um café. Achei que poderia ser uma boa e comecei a procurar um local. A Paulista já estava cheia. Daí, pensei no Centro”, lembra ele. Quando encontrou o ponto na praça Dom José Gaspar, Campiglia não sabia que ali tinha sido o lendário Paribar. Sequer sabia a história do lugar no qual estava acabando de se instalar. Sua primeira ideia era mesmo abrir um café, mas foi convencido do contrário por um cozinheiro. “Ele me disse que café não daria dinheiro. Que o negócio era abrir um restaurante. Acabei concordando”.

Naquele ano (2006), Campiglia abria o Santa Fé – restaurante especializado em culinária italiana. Não demorou e os antigos frequentadores do Paribar começaram a voltar. Eles contavam a Campiglia histórias do antigo bar. “Fui me interessando pelo assunto”, diz.

Quando o local já funcionava como Santa Fé, Campiglia foi informado pelos seus advogados de que o nome já havia sido registrado por outra pessoa. Portanto, ele precisaria começar a procurar um novo nome. Meio que por acaso (e sem nenhuma esperança), pediu que seus advogados fizessem uma pesquisa sobre o nome Paribar. Surpresa! O título nunca havia sido usado. Campiglia poderia reinaugurar o famoso bar.

E assim foi fundado o novo Paribar, no dia 7 de abril do ano passado. Campiglia teve o cuidado de não ter apenas o mesmo nome, mas de reproduzir algumas características do bar original, como as cadeiras de vime no terraço, o letreiro com o nome da casa e os detalhes da decoração. “É claro que o novo Paribar não é um museu. Mas reverenciamos o nosso passado e queremos recuperar esse espírito”. Por isso, ele organizou uma pequena exposição de fotos sobre a história do bar e, em breve, deve lançar um livro também sobre o lugar. Se os antigos frequentadores estão satisfeitos? “Às vezes, aparece alguém reclamando, dizendo que antigamente o bar servia uma pipoquinha e um amendoim para quem se sentasse e pedisse uma bebida. Outros querem a volta de um filé de fígado que também era servido na época”, conta o empresário.

Com a reabertura da Biblioteca Mario de Andrade e a realização da Virada Cultural e de outros projetos envolvendo a Praça Dom José Gaspar, Luiz Eduardo Campiglia acredita na volta de intelectuais, escritores, jornalistas e gente a fim de conhecer um pouco da história de São Paulo. Ou, simplesmente, beber um trago relaxante no Centro. Numa mesinha do bom e velho (quer dizer, novo) Paribar.

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