Jornal da Tarde: a conquista da Lua na visão indígena

Jornal da Tarde: a conquista da Lua na visão indígena

Edmundo Leite

16 de julho de 2021 | 14h42

A chegada dos astronautas da Apolo 11 à Lua em 20 de julho de 1969 foi destacada na capa inteira do Jornal da Tarde. “Estamos em outro mundo: o homem desceu na lua. Veja tudo o que a TV não mostrou”, estampou a manchete no dia sequinte sobre uma grande foto transmitida por satélite de Neil Armstrong caminhando em solo lunar.

Um pequeno texto detalhava um pouco da conquista: “Mar da Tranquilidade, 20: um homem está andando mais facilmente do que se esperava no solo empoeirado da Lua. É Neil Armstrong, êste homem. Veja-o: êle colocou o seu pé esquerdo no chão da Lua às 23h56 de ontem, algumas horas antes do que devia: mas, afinal, como conseguiria dormir? Seu coração, ao descer a escada, batia mais. Veja também os novos mistérios da Lua.”

Mas era no informe da capa sobre a cobertura especial que um pequeno título chamava a atenção: “Os maus espíritos da Lua vão matar os astronautas. Está na página 13.”

Naquela página, um texto de página inteira do repórter Anélio Barreto contava como os indígenas Kamayurá, que viviam no Parque Nacional do Xingu, recebiam a informação de que o homem branco – os “caraíbas” – estavam em “Yaí”, como chamavam a Lua, um deus poderoso deus que criou e deu força aos homens. A mitologia dos Kamayurás era descrita em detalhes, além de outras informações de como receberam a notícia:

“Foi Orlando Villas Bôas, o sertanista, quem contou aos Kamayurás que os homens iriam pousar na lua. Os índios ouviram tudo em silêncio, até que Wahú falou:

– Os caraíbas não voltam de lá.

Maipu, o filho de Wahú, ouviu as palavras do pai. Mas afastou-se depois, porque ainda não é tempo de saber essas histórias – agora Maipu tem apenas 16 anos. Ele só poderá saber de tudo quando os jovens de sua idade, na aldeia, estiverem preparando-se para casar. Então eles sairão com os pais, para aprender a caçar – diz Tuvulé, o cacique. – Maipu, antes disso, aprenderá a ser pajé.”

Os brancos conquistam a lua, o grande deus Kamayurá

Anélio Barreto

A Lua não é a Lua. Para os Kamayurás, ela é Yaí, o poderoso deus que criou e deu força aos homens. Os Kamayurás, que agora vivem no Parque Nacional do Xingu, em cinco grandes malocas, são filhos diretos de Yaí. A Lua também lhes deu o arco, a flecha e a sabedoria para a caça. Depois, ela subiu para os céus, com espíritos maus e animais selvagens. Quando há eclipse e escurece a Lua, os Kamayurás rezam por seus mortos.

Hoje, os índios Kamayurás, do grupo Tupi, não vão rezar para Yaí, a lua. Eles nem mesmo cantarão para ela, como ensinou o bravo Araútará, o único índio que chegou ao céu e voltou para contar a seus irmãos o que viu. E Araútará os ensinou a cantar, durante os eclipses, para afastar de Yaí os maus espíritos e os animais selvagens.

É por causa desses animais e dos maus espíritos que os Kamayurá não cantam ou rezam hoje. Para que eles não se afastem do céu. Porque são eles que vão defender Yaí , a lua, dos caraíbas, os homens brancos.

– E os caraíbas não vão nunca voltar de lá. É o que dizem os dez pajés Kamayurás.

É o que diz Wahú, o grande pajé. Os índios da tribo não cantam ou rezam hoje, mas os seus pajés vão se reunir como se reúnem todos os dias para falar de Mautsiní ou Kwat, o sol, e de Yaí.

– Quando o sol estiver assim, a reunião começa.

Para Tuvulé, o cacique, quando o sol estiver assim, e ele mostra um ponto no céu, significará que a noite está chegando, que o sol começa a esconder-se atrás das águas do grande lago que fica ao lado da aldeia. Quando sol estiver assim, os pajés sairão de suas malocas, prepararão seus grandes cigarros ao lado do cemitério, que fica no meio do círculo formado pelas malocas e, cercados por vários pedaços de madeira pequenos, sentarão nesta cerca e começarão a contar, enquanto fumam, as suas histórias – as histórias dos caraíbas, os homens brancos, e dos Kamayurás. Estas são também as histórias do sol e da lua, os seres que criaram os homens. [leia a íntegra do texto]

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