Jornal da Tarde: Chevette grafitado no Jornal do Carro

Jornal da Tarde: Chevette grafitado no Jornal do Carro

Edmundo Leite

08 de outubro de 2021 | 15h22

Artistas plásticos Alex Flemming, Rui Amaral e John Howaard grafitaram carro em 1987

Depois de se libertar das galerias e museus e ganhar as ruas, paredes e muros da cidade nos anos 80, a arte do grafite se tornou móvel e ambulante no Jornal da Tarde de 4 de novembro de 1987. Naquele dia, o encarte Jornal do Carro trazia em sua capa a foto de um Chevette pintado pelos artistas plásticos Alex Flemming, Rui Amaral e John Howaard.

Os três, que já tinham vários trabalhos espalhados pela cidade, se juntaram para pintar o Chevette da jornalista Leonor Amarante, do Caderno 2 do Estadão, que já tinha o interior da sua casa grafitado pelo pioneiro Alex Vallauri.

Leia o texto de Darlene Dalto e veja a galeria de fotos sobre o grafite em São Paulo.

 

O Grafite sobre rodas

Jornal do Carro – Jornal da Tarde – 4/11/1987

Darlene Dalto, especial para o JC.

Em tempo de Marcel Duchamp, Antonio Henrique Amaral, Tozzi, Tarsila e Hélio Oiticica à mostra na cidade, a arte ganha um novo espaço — móvel e ambulante. A arte, no caso, é o grafite, que nunca concordou em ficar restrito a quatro paredes de um museu ou uma galeria e foi se instalar nos muros, ao ar livre. O espaço móvel e ambulante, no caso, é um carro, mais especificamente o Chevette da jornalista Leonor Amarante, do Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, antes branco, agora multicor graças ao spray de três artistas plásticos: Alex Flemming, Rui Amaral e John Howard.

Não é de hoje que eles se dedicam à pintura, desenhos e afins. Em comum o grafite. Alex Flemming mestre e precursor, chegou a cobrir Manhattan com suas obras, saindo dos bueiros, entrando nas cai

xas dos correios, portas. No Brasil, passou aos dragões com asas, por exemplo, que ainda podem ser vistos no túnel do cruzamento das avenidas Paulista e Consolação. Rui e John também têm dezenas de grafites espalhados pelos mais diversos pontos da cidade. E desse americano radicado no Brasil desde os anos 60 a idéia de invadir o buraco da Paulista, há quase um ano. Jânio não gostou. É dele também a idéia de se apropriar do muro da rua Oscar Freire, entre as ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde. “Eu gosto de interferir na vida das pessoas”, diz o artista.

Mas a idéia de grafitar o carro partiu da própria Leonor. Na verdade, a iniciativa é uma extensão do que já havia feito em sua casa. Há muito, ela acompanha de perto todoos os movimentos das artes plásticas. Do grafite, sabe a história. “Eu sou muito amiga do Alex Vallauri há quase 20 anos. Um dia, decidimos grafitar minha casa. Eu amo São Paulo, então, na sala, ele fez uma São Paulo muito melhor do que a que expôs na Bienal de 85.”

Além da sala, os artistas tomaram o terraço e a escada da casa de Leonor fixando mandrakes,

raios, parafusos, alfinetes e uma série de outras máscaras. No jardim, alguns jacarezinhos. “Não tive nenhum problema para convencer meu marido e meus filhos. Todos curtiram muito o trabalho do pessoal”, conta ela.

Da casa para o carro foi um pulo. “Notei que meu carro estava começando a enferrujar. Ele é 78 e eu não queria reformá-lo. Então, me lembrei de ter visto vários carros grafitados em Berlim. O trabalho era baseado na obra do norte-americano Keith Hering. Era muito bonito. Assim, pensei em falar com alguns amigos.”

Ela não precisou de muitos argumentos para conquistar o pessoal da Vila Madalena. Toparam na hora. “Fizemos tudo em uma tarde de domingo”, diz. Trabalho pronto, os quatro resolveram dar uma volta para ver a reação das pessoas. Avenida Paulista, pontos de ônibus, feira de antiguidades

no Masp. “Foi muito interessante”, conta Leonor. “No Masp, um marchand parou a gente para ver melhor o carro e pediu para que os três grafitassem o carro dele. Não precisou pedir duas vezes. Foi ali mesmo, em menos de quinze minutos. Nos pontos de ônibus, não tinha uma só pessoa que não olhava. Até os guardas ficavam olhando meio sem entender.”

Para Flemming, grafitar o carro foi uma experiência e tanto. “Imaginem só quantas pessoas vão poder ver nosso trabalho. É muito mais amplo do que uma galeria, do que um museu, do que o túnel da Paulista.” Arte ambulante, Rui lembra de uma frase de Milton Nascimento que dá bem a dimensão da proposta. “Lembram? O artista tem que ir aonde o povo está. É isso!”

Ineditismo à parte, o grafite beira o diletantismo. Ninguém ganha dinheiro com isso, ainda. Ao contrário, o spray, o material para as máscaras saem dos próprios bolsos. Sem subvenção. Para sobreviver, pintam, desenham, fazem cenografia e até dão aulas de inglês. De tudo um pouco. Até por isso, todos os três se mostraram dispostos a continuar esse trabalho, sob encomenda. Em série? “Seria ótimo se a Ford ou a Volks, por exemplo, nos convidassem para fazer um série especial de carros grafitados. Mas acho que isso é um sonho”, diz Flemming.

O preço para quem quiser ter seu carro grafitado varia de artista para artista. Segundo Rui, vai depender do tipo de trabalho, do tamanho do carro, até da pessoa. Flemming diz que o custo deve girar em torno do que vale uma tela com sua assinatura, ou seja, perto de 90 mil cruzados. E lembra: “Há algum tempo o Antonio Henrique Amaral desenhou rótulos para uma marca de vinho, o Aldemir Martins desenhou latas de sorvete para a Kibon. Porque não carros?” Por que não?

Um dos principais empecilhos é o artigo 190 doregulamento do Código Nacional de Trânsito, que estabelece que um veículo deve ter como características básicas a marca, modelo, número do chassis, classificação, capacidade nominal e cor. De acordo com Cyro Vidal Soares da Silva, delegado de polícia, chefe do Detran — Departamento Estadual de Trânsito —, se no certificado de registro do veículo, que é expedido pelo Detran, não constar claramente cada um dessas características — e elas devem estar em concordância com o carro — ele não estará devidamente habilitado para transitar.

O Chevette de Leonor era branco. Agora, é multicor. Nesse caso, ainda segundo as instruções de Cyro Vidal,é necessário modificar a descrição da cor do veículo, caso a cor predominante não for maisa original, no caso, o branco. A resolução 655 de 27 de agosto de 1985 do Conselho Nacional de Trânsito esclarece que essas características só poderão ser modificadas em conjunto ou separadamente mediante uma autorização prévia das autoridades de trânsito. Feito o pedido, o carro passa por uma nova vistoria, que vai determinar a mudança de cor ou não. A operação embora pareça complicada, é simples, rápida e, o que é melhor, gratuita.

Não faz muito que o crítico italiano Massei esteve no Brasil. Passeando pela cidadem, ele não resistiu aos grafites paulistanos e acabou levando para a Itália ensaio com mais de 600 fotos. Leonor garante que Massei ficou impressionado com a qualidade e a preocupação social de cada trabalho. Em suas entrevistas, quando passou por São Paulo, John Lindon, líder do grupo PIL (ex-Sex Pistols), também falou a respeito dos grafites que viu na cidade. Gostou muito. Jânio, nosso prefeito, volta e meia manda limpar os grafites. Gosto não se discute. Será?

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