Jornal da Tarde: Fantomas contra a Múmia na luta livre

Jornal da Tarde: Fantomas contra a Múmia na luta livre

Edmundo Leite

04 de abril de 2022 | 12h22

Dois atletas inusitados apareceram na edição de esportes do Jornal da Tarde de 2 de julho de 1979: os lutadores personagens de luta livre Fantomas e Múmia. O texto do repórter Sérgio Baklanos contava como o show Astros do Ringue fazia sucesso num ginásio no bairro da Água Rasa, em São Paulo, e nas telas da TV Bandeirantes naquele final na década de 70.

Jornal da Tarde – Edição de Esportes – 2 de julho de 1979

Fantomas contra a Múmia

“Um encontro dos dois monstros sagrados da luta livre (catch) ainda leva multidões de ardorosos fãs ao ginásio do Sete de Setembro, na Água Rasa. Depois de uma fase esquecida, a luta livre volta com toda a sua força, com os heróis mascarados e seus golpes fantásticos. Por Sérgio Baklanos.” 

O juiz mal consegue levantar o pesado braço de Fantomeas, enquanto seu adversário, estendido na lona, contorce-se em dores. Mais uma vez, o bem venceu o mal, renovando o antigo ritual das vitórias, onde garotos fascinados cercam o seu ídolo só para tocar as suas roupas, diante do delírio de fogosas solteironas.

Fantomas, afinal, é um desses heróis dos tempos modernos que não precisam de estádios lotados e nem das páginas nobres dos jornais para serem idolatrados e respeitados. Ele é apenas uma das atrações dos Astros do Ringue, que, nas noites de domingo, lotam o ginásio do Sete de Setembro da Água Rasa.

Mas tanto os garotos de 4 a 14 anos, como os velhinhos aposentados que não encontram maneira melhor de preencher a noite dos domingos, reagem da mesma maneira, vibrando com as tesouras voadoras ou ofendendo os juízes que procuram impedir a vitória de seus heróis.

E, para que não digam que Fantomas ou a Múmia não passam de heróis suburbanos, aí estão os índices do Ibope da TV Bandeirantes, que marcaram 30 pontos na noite de 22 de maio, quando os dois se enfrentaram.

— O segredo é que não enganamos o público — diz Homem Montanha —, lembrando o tempo em que os principais canais de televisão colocavam a luta livre nos seus horários nobres de programação.

O catch, como é chamado tradicionalmente, não se trata de uma luta séria e competitiva, mas apenas de um espetáculo humorístico, sem — no entanto — fugir da linha do pugilismo. Como o cinema, se todos os truques fossem abolidos, a luta livre não passaria de um esporte lerdo e sangrento, que exaltaria força em vez de excitar a imaginação.

Assim, as tesouras voadoras — os pés de um lutador cruzam-se no pescoço de seu adversário — jamais teriam o poder de arranca-lo do chão, atirando-o na lona. E as chaves de braço — sem que o lutador atingido desse um mergulho para a frente— provocariam apenas uma fratura de clavícula e não o aparatoso giro de seu corpo no espaço.

E o fantástico Fantomas, que caminha sinistramente na direção de seu seu adversário, sem dobrar as juntas dos braços e das pernas e cuja identidade é mantida em impenetrável mistério, pode ser um simples escriturário ou um corregador das docas. Afinal, o que caracteriza o lutador é a sua roupa exótica, com uma máscara negra e colante que disfarça todas as suas características físicas.

Os interesses da Astros do Rigue Promoções precisam ser preservados. José Aníbal Saumell, o quarto Homem Montanha do catch no Brasil, Gran Caruso e O Cangaceiro, os seus proprietários, tiveram muitos aborrecimentos com lutadores que, por não usarem máscaras, julgavam-se donos do show, exigindo cachés bom mais compensadores.

Isso, sem contar os riscos de, um desses lutadores, utilizando as fantasias de King Kong, Fantomas, da Múmia e de outros personagens, passassem a exibir-se nos circos, sem recolher os devidos royalties à firma, que tem as patentes desses personagens registradas no Ministério da Indústria e Comércio.

Há exceções, é verdade, como no caso do Executivo, que luta de terno, gravata e pasta 007, sempre acompanhado por misteriosas viúvas que nunca perdem as suas lutas. Executivo não é apenas um apelido, mas a função do argentino Miguel Angel Chuerino, chefe de um dos departamentos dos Supermercados Pão de Açúcar.

Por isso, a empresa desistiu de descobrir um sósia do Incrível Hulk para aproveitar o sucesso daquele série de teve. Não há lugar para estrelas, num árduo ramo de negócios que exige um grande investimento da Astros do Ringue Promoções, dona de uma frota de 16 veículos e que tem sob contrato 78 lutadores, ocupando os balcões do antigo Cine Brás Politeama, na Rua Costa Valente.

Como os bons tempos Voltaram, a firma está em expansão construindo uma cozinha e dormitórios para dar assistência aos profissionais que vivem apenas dessa atividade e que, nas viagens pelo interior, exibem-se todas as noites.

Afinal, a televisão é importante para que show seja levado ao vivo para outras cidades e Estados. Hoje, o catch está reabilitado depois de dez anos, de exílio, provocados pelo exploração excessiva da televisão, na época das marmeladas, quando os promotores, enganando o público, tratavam de vender as lutas como autênticas, forjando campeonatos e títulos mundiais.

Anos 50

Nos anos 50, quando o público ainda podia ser iludido, o catch chegou a ter público maior do que o futebol, celebrizando a figura de Antônio Rocca, o primeiro lutador a trazer o tesoura voadora ao Brasil.

Apesar da fama e do sucesso, Rocca faleceu recentemente em Nova Iorque, quase na miséria, por causa das dividas com o fisco, Já que explorava também o ramo da luta livre nos Estados Unidos.

É o caso de Antônio Inoke, descoberto pelo célebre Riki Dosan, o maior lutador de todos os tempos, verdadeiro campeão mundial de luta livre, sumô e karatê. Inoke era um simples carregador de caminhões na Zona do Mercado, filho de lavradores, e que nos Estados Unidos, aproveitando as suas ligações com máfia, montou um império na luta livre, a ponta de enfrentar Cassius Clay em Tóquio, num dos maiores fracassos promocionais da carreira daquele grande pugilista.

O português Zé Luis também ficou famoso naquela época, com as suas mortíferas cabeçadas, o que não impediu um triste fim de carreira, morrendo cego e surdo na Ilha da Madeira, resultado de uma luta séria contra o seu arquiinimigo Taborda.

O sonho de Homem Montanha, agora, e descobrir um lutador com os traços de Clark, Kent, que seja forte e saiba voar. Só não precisa ter nascido no planeta Kripton.

Estadão | acesse todas edições desde 1875

Tudo o que sabemos sobre:

luta livre

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.