Black-tie mundo cão – em busca de Hélio Santos

Estadão

21 de dezembro de 2010 | 09h14

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Cabelo pixaim tingido de acaju, pele esverdeada, corpo franzino, quase 60 anos. Perfumado, sempre de terno e gravata, o sapato impecavelmente limpo. Amigo de delegados e travestis. Incógnita, não dava telefone nem endereço de casa pra ninguém. Mito do jornalismo bizarro e policial das décadas de 80 e 90. Esse é Hélio Santos, repórter da madrugada do extinto Notícias Populares (NP). Rodava as ruas de São Paulo de ponta a ponta, não temia as quebradas da periferia, conhecia todas as delegacias de cor e salteado.

Hélio em momento descontraído com Joyce / Reprodução

Reservado em relação à vida pessoal, tinha poucos amigos e não manteve os contatos de trabalho. Tentei encontrá-lo durante três meses, sem sucesso, para fazer este perfil. “- Alô, sabe por onde anda o Hélio Santos? – Não tenho idéia, mas se você encontrá-lo por favor me avise, também quero saber!”, foi o que mais ouvi.

Seu ex-editor-chefe no NP, Fernando Costa Netto, não sabe. Seu motorista, Zé Carlos, hoje no Diário de São Paulo, também não. Zé Maria, o fotógrafo que o acompanhava nas aventuras, tampouco. Sem contar Rachel Añon, a primeira mulher a fazer a ronda da madrugada paulistana, hoje na Folha Online. Nenhuma pista também com outros colegas entrevistados.

“O Hélio sempre foi um mistério. Não tinha muitos amigos, só se relacionava com as pessoas da madrugada. Seu telefone nunca funcionava, mas sempre aparecia tarde da noite na redação”, diz Costa Neto, que lembra dele como “o repórter mais cheiroso do Brasil”. No prédio da Alameda Barão de Limeira, poucos conheciam o homem por trás de histórias como o manual ilustrado para siliconar peitos de travestis ou do rapaz que cortou a própria mão para receber dinheiro do seguro.

Na falta de informações, os colegas começaram a inventar histórias sobre aquele jornalista das antigas, que em plenos anos 90 fazia questão do terno e gravata. A mais famosa dizia que Hélio era esverdeado, pois nunca tomava sol. Também se falava muito da sua amizade com a travesti Joyce [na foto acima], rainha da boca do lixo paulistana.

“É tudo mentira”, diz o motorista Zé Carlos, em meio às gargalhadas. “Era um jogo meu e do fotógrafo, o Zé Maria. Como ninguém conhecia o Hélio, espalhávamos que ele estava ficando verde, que tinha ido morar com a Joyce… E os repórteres acreditavam”, conta. “É tudo papo, a gente criava um folclore a as pessoas compravam”, diz Zé Maria.

Joyce, 1 metro e 80 de altura, era amiga do trio e os ajudava em pautas sobre o lado B da metrópole. A mais famosa revelou, com fotos e instruções detalhadas, como um travesti decidido a ganhar peitos fazia a injeção caseira de silicone, usando moldes de diversos tamanhos – numa época em que os transplantes femininos ainda não haviam se popularizado.

“A Joyce ia ajudar um travesti a colocar os peitos e nos chamou no apartamento dela, na Praça Roosevelt. Primeiro fizemos a foto do cara sem peito, depois já com um peitinho, e no final, com um peitão”, conta Zé Carlos. A matéria ganhou a capa do NP e foi sucesso de vendas.

Hélio nasceu no final da década de quarenta, no interior da Bahia. Tentou a sorte em São Paulo e conseguiu fazer seu nome como jornalista policial do extinto Última Hora. Nos idos de 1985, foi contratado pelo Grupo Folha, que na época editava quatro jornais: Folha de S. Paulo, Folha da Tarde, Notícias Populares e Gazeta Esportiva. Hélio assumiu logo de cara a madrugada do sangrento NP.

“Era um cara quieto, calmo, ficava muito na dele. Um dia fomos parar no meio de um tiroteio no M’Boi Mirim, todo mundo com medo e ele sai do carro, fumando, pra ver o que era”, conta Zé Maria. Zé Carlos diz que Hélio não temia a morte: “Nessas horas ele sempre me falava: um dia vai chegar a nossa hora, ‘tiozinho’”.

A madrugada paulistana, naquele tempo, era mais violenta do que hoje e não faltavam crimes e situações para as páginas do NP e suas manchetes sarcásticas. Numa noite quente, o trio se deparou com três histórias no estilo “piada pronta”.

A primeira ocorrência foi acidente de trânsito, uma Brasília batida no poste. Fato corriqueiro, não fosse a situação da passageira: estava algemada ao carro quando ocorreu a batida e não conseguia sair de lá. Uma história boa, suficiente para garantir o dia. Mas logo surge o caso de um homem que amputou a própria mão para receber o dinheiro do seguro. E lá vai o trio do NP apurar o acontecido. No final do expediente, às quatro da manhã, um policial liga para Hélio e avisa: “largaram um caixão no meio de uma praça com um cara assassinado a tiros dentro”.

Reprodução

Nem sempre uma história parece boa à primeira vista, mas Hélio gostava de checar todas de perto. Os jornalistas da madrugada tinham (e até hoje têm) o hábito de se encontrar no Bar Estadão, no centro da cidade, quando não há nada relevante para cobrir. Lá eles jogam conversa fora, comem e ficam à espera das novidades. A madrugada de 18 de maio de 1999 transcorria como uma dessas, até chegar a notícia de um táxi acidentado na Avenida Nove de Julho, bem próximo do bar.

“Ninguém se animou a ir, parecia uma notícia fraca, mas o Hélio resolveu dar uma olhada”, conta o motorista. Chegando lá, havia um senhor morto dentro do carro, com jóias, roupa elegante e sapato caro. Zé Carlos pegou o documento da vítima e leu: Dias Gomes.

“Chamei o Hélio e perguntei: não é aquele cara que escreve novelas da Globo, marido da Janete Clair?”. Bingo, era ele mesmo! Na hora, Hélio ligou para a redação da Folha Online e passou o furo – na época os celulares ainda eram tijolos analógicos e o jornalismo online engatinhava. Em poucos minutos a notícia estava no ar, exclusiva, no site da Folha. E logo aparece no local uma equipe da Rede Globo. “A repórter chegou reclamando com a gente, dizendo que éramos loucos, onde já se viu dizer que o Dias Gomes tinha morrido… Aí ela viu o RG e a Globo percebeu o que tinha acontecido”, conta Zé Carlos.

Mas nem sempre as madrugadas eram boas. A rotina incessante de mortes, crimes e desgraças de todo gênero não perdoa e às vezes repórter, fotógrafo e motorista se percebiam deprimidos. “Nós dizíamos que eram os maus fluídos”, conta Zé Carlos. Nesses dias, Hélio Santos entrava no carro e pedia: “quero ver coisa bonita”. O carro da reportagem escapava das pautas para flanar pela Oscar Freire, Avenida Paulista, Vila Olímpia. “Ficávamos andando devagarzinho, pra desanuviar”, diz Zé Carlos.

“A madrugada envelhece, acaba com você. Geralmente chegava em casa e não conseguia dormir por causa da adrenalina, ficava pensando nas pautas”, conta o motorista. Hélio também não dormia quando chegava em casa – acumulava empregos e, após o expediente no NP, ia trabalhar em um jornal de bairro. Segundo Raquel, além dos dois empregos, ele se sustentava graças a uma pequena aposentadoria.

“Não éramos valorizados pelo trabalho”, diz Zé Maria. “Entrávamos no Capão Redondo no meio de tiroteio, via ladrão botando fogo em cadáver e não tínhamos nem carro adequado”, conta. Durante alguns anos o NP usou um táxi para a ronda da madrugada, e Hélio e Zé Maria tiveram que comprar, do próprio bolso, adesivos para sinalizar “REPORTAGEM” no veículo e evitar confusões – com freqüência, eles eram abordados pela polícia no meio de pautas na periferia. Quando menos esperava, o trio ouvia a sirene e os policiais gritando “Desce, desce, desce!”.

Com o tempo, Zé Carlos começou a sentar na redação do NP para ajudar na apuração. Enquanto Hélio falava com os delegados, Zé Carlos ligava para o Copom, centro de operações da Polícia Militar, em busca de novas ocorrências.

E não podiam faltar brigas em uma convivência diária tão intensa. A mais comum, entre fotógrafo e repórter, acontecia quando o carro chegava na pauta. Hélio Santos, sempre calmo, ficava se arrumando e demorava a descer. Enquanto se preparava, Zé Maria já tinha saído e feito o primeiro contato com os policiais. “Ele só descia se conhecesse o policial, senão tinha que ser eu”, reclama o fotógrafo. “O Hélio gostava de irritar o Zé Maria, principalmente em fim de pauta”, conta Zé Carlos. Com o expediente terminando e o fotógrafo doido para ir pra casa, Hélio mandava: “Vamos visitar as princesas [os travestis]”. No banco de trás, Zé Maria bufava.

Nos meses de inverno, quando as ocorrências rareiam, Hélio pedia para o motorista escolher um número de 1 a 102 (os Distritos Policiais da cidade) e mandava todo mundo para aquela delegacia. “O Zé Maria ficava me encarando bravo pelo espelho retrovisor, pra eu não escolher nada muito longe”, lembra Zé Carlos, rindo.

Nesse esquema aleatório, uma noite eles foram parar no 4º DP, na Consolação, e ouviram uma confusão. Um preso que não tinha os dois braços se debatia e quebrava vasos e janelas – não havia como algemá-lo. O rapaz fora flagrado horas antes tentando enforcar uma mulher, usando o pé para apertar o pescoço da moça contra a calçada, em frente à Igreja da Consolação. Hélio não se conteve e desatou a xingá-lo de “vagabundo”, e o homem devolveu as agressões no mesmo tom.

Alguns meses depois, no meio de uma pauta, a equipe do NP encontrou o mesmo homem por acaso, na praça da República, com uma pochete pendurada no pescoço. Nesse dia Hélio Santos gelou, segundo Zé Carlos. “Quando ele viu o homem foi correndo pro carro e mandou a gente sair de lá rapidinho!”, diz.

“Comigo o Hélio sempre foi um amor, tenho grande admiração por ele”, conta Raquel, que cobriu suas folgas na madrugada por dois anos, até o fim do Notícias Populares, em janeiro de 2001. “O vi pela última vez em 2008, no Largo do Arouche, estava com uma cara melhor do que na época do jornal”, conta.

Seu pedaço sempre foi o centro velho. Na época do NP, apenas Zé Carlos e Zé Maria sabiam seu endereço: Rua Rego Freitas, a poucos quarteirões do Grupo Folha. Depois ele se mudou para a Rua Aurora, na mesma região.

Com as economias, Hélio conseguiu comprar um pequeno sítio em Embu, na região metropolitana de São Paulo, em endereço não revelado. É lá que seus colegas acreditam que ele esteja, beirando os 70 anos e curtindo o neto – um presente da sua filha, que de tanto ouvir histórias policiais em casa se formou em Direito.

Foto: Hélio em momento descontraído com Joyce / Reprodução

Texto publicado na Revista Babel da ECA-USP.

Dois meses após esse post, o repórter da Trip Décio Galina foi atrás de Hélio Santos e descobriu que ele havia morrido em 2007. Dessa busca, resultou uma bela reportagem.

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