Demerval

Estadão

13 de maio de 2010 | 05h32

JB Neto/AE

Bruno Lupion, do estadão.com.br – Foto: JB Neto/AE

Na casa de Demerval Vilela, não há paredes. O piso é de terra. E a laje trepida quando passa caminhão em cima. Ele mora, há dez anos, sob uma ponte da Rodovia Fernão Dias.

Seu Demerval, como é conhecido este pernambucano de 59 anos, tem familiares em Poá e os visita de vez em quando. Mas logo volta para debaixo da ponte, pois não quer morar de favor na casa de ninguém.

Faz bicos de pedreiro e catador de material reciclável, recolhendo lata, papel e plástico do lixo. “Ganho pouquinho, mas dá para a boia”, diz.

Além de Pernambuco, já morou no Maranhão e no Paraná. E chegou a sair do país, na década de 90, para trabalhar em um cafezal no Paraguai.

Sua primeira vez no Sudeste foi em 1976, quando arranjou um emprego de ajudante na Prefeitura de Poá. Dois anos depois, seu pai o chamou de volta para a roça e ele pediu demissão.

O trabalho agrícola no sertão nordestino não prosperou, e ele foi para São Luis do Maranhão, servir como pedreiro. Até que, em um dia de 1986, Demerval e um colega decidiram erger, no braço, um painel de madeira. “Senti a coluna estralar, uma dor grande e soltei o painel. Fui direto para a injeção”, conta.

Após exames, a empresa o considerou inválido para a função de pedreiro e o demitiu. Demerval recorreu ao INSS para obter uma aposentadoria, mas até hoje não recebeu nada. “O INSS nunca me deu um centavo, lá só paga morto”, reclama. Depois do acidente, voltou para o sul em busca de oportunidades.

Apesar do medo e da violência que enfrenta sob o viaduto, onde moram outras pessoas, ele não pretende sair, basicamente porque não tem onde morar. “Não queria essa vida, se tivesse condições não moraria aqui, mas a necessidade fez assim”, diz.

Ele diz que gosta de São Paulo, pois “no Nordeste não chove, a terra é seca e não serve pra nada”. Mas prefere não se misturar com os outros moradores de rua. No viaduto, Demerval é o único que dorme afastado. “Prefiro ficar sozinho, não gosto de andar em patota. Pernambucano não se junta muito”.

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