A madrugada carioca dos anos 70 nas páginas de ‘O Cruzeiro’

Estadão

05 de setembro de 2010 | 11h27

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Em abril de 1973, o repórter Gilberto do Vale e o fotógrafo Vieira de Queiroz rodaram o Rio de Janeiro de ponta a ponta para retratar o metabolismo noturno da Cidade Maravilhosa.

Na época, a ponte Rio-Niterói estava sendo construída e o Brasil era governado por Emílio Garrastazu Médici. A revista ilustrada “O Cruzeiro”, fundada por Assis Chateaubriand em 1928 e sucesso absoluto de vendas nas décadas de 40 e 50, se aproximava do fim – a última edição foi às bancas em junho de 1975.

Veja a bela matéria abaixo:

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Crédito: Enquanto a cidade dorme. “O Cruzeiro” de 4 de abril de 1973, nº 14

Texto: Gilberto do Vale – Fotos: Vieira de Queiroz/Reprodução

São dez horas da noite. As portas das residências já estão fechadas. Na sala, de pijama, o carioca boceja diante da televisão, aguardando o fim do programa preferido. É hora de dormir. Durante o sono de oito horas, a cidade diminui seu ritmo intenso e nervoso, mas continua a viver. Enquanto muitos descansam, alguns se divertem e outros trabalham.

Mas a rotina é quebrada quando chega o fim de semana. A transformação é total. O carioca se solta, desliga-se. Seu único compromisso é viver, estar presente no espírito adolescente e alegre que ronda os bares e boates e se esparrama pelas ruas.

A fisionomia noturna do Rio é peculiar e já foi definida como “um universo inexplicável, porque o que acontece em Ipanema jamais acontece em Madureira”. Apesar do exagero da afirmação, a noite carioca tem características distintas em pelo menos três áreas: Norte, Centro e Sul.

Zona Norte: o silêncio

Na Zona Norte, as ruas estão desertas, os bares fechados e o silêncio é cortado apenas pelo ruído dos motores dos veículos que deslizam suavemente, avançando os sinais de trânsito. Caxias, motorista de táxi há 43 anos, que sempre trabalhou à noite, justifica a infração:

– Parar num sinal à noite é pedir para ser assaltado. A gente roda 20 minutos sem encontrar uma pessoa. Quando o sinal fecha, diminuo a velocidade, olho para os lados para ver se vem algum carro e arranco rápido. Se vacilar, tenho que encarar dois revólveres, perder o dinheiro e talvez a vida.

O medo de andar pelas ruas dos subúrbios seria maior se as estatísticas do Hospital Getúlio Vargas, que atende a uma população de cerca de 800 mil pessoas, fossem divulgadas. Durante a noite, a maioria dos atendimentos é de pessoas feridas.

Zona Sul: a brisa

Na Zona Sul, o mar soprando a brisa fresca nas madrugadas de calor é um convite para o carioca sair e respirar. Em toda a orla marítima, os bares ficam abertos até a madrugada para refrescar o papo dos boêmios com um chopinho gelado. Nos bancos ou na areia macia e deserta, uma sensação de calma envolve os namorados. Mas também os mais diversos tipos de trabalho estão incorporados à vida noturna da Zona Sul. Antônio José, 16 anos, passa as noites em Copacabana. Vende sanduíches e refrigerantes na Avenida Atlântica.

– Há cinco anos estou neste serviço. Gosto de trabalhar à noite porque é mais tranqüilo. Os fregueses não têm pressa de ser atendidos e a gorjeta é sempre maior.

Antônio José explica que no verão o movimento é grande e o estoque consumido rapidamente, e “quando o serviço acaba, dou uma dormida até clarear. Depois é voltar para casa em Cascadura, descansar um pouco e esperar a noite chegar para começar tudo de novo”.

Centro: a boemia

O Centro da cidade, à noite, perde a sua população flutuante, que durante o dia enche as ruas a passos rápidos. As casas comerciais e escritórios estão vazios. As duas principais avenidas – Rio Branco e Presidente Vargas -, iluminadas por seus lampiões coloniais, parecem mais largas e extensas.

A Lapa morreu. E com ela o encanto boêmio do centro da cidade. A Praça Mauá é o único local que ainda mantém a sua tradição mundana. Os bares e inferninhos continuam cheios. Nas calçadas, os motoristas de táxi reúnem para discutir futebol, enquanto aguardam “um gringo para fazer uma corrida e receber em dólar”. Nas praças, os bancos dos namorados agora são ocupados por velhos amigos para um papo de recordação ou por alguém que espera a noite passar.

No Passeio Público, sentados com o rosto entre as mãos, João Batista, 19 anos, dorme esperando o dia clarear. Esfrega os olhos antes de explicar que foi despejado da pensão por falta de pagamento.

– Fui demitido porque vou servir o Exército. Fiquei sem dinheiro e a dona Hermelinda me mandou embora hoje. Não sei o que vou fazer amanhã, mas agora quero é dormir, porque a Lua está bem redonda e o sono aqui é muito tranqüilo.

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rodoviariapeq

A Rodoviária Novo Rio acolhe forasteiros em trânsito. Muitos vêm do Nordeste e aliesperam o ônibus para São Paulo; o conhecimento da cidade se restringe apenas àquele local. À noite não funcionam as escadas rolantes e a TV. Muitas lojas comerciais fecham. Alguns dormem e às vezes perdem a passagem.

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policia

A Polícia registra mais ocorrências nas noites de quinta – roubos às lojas da Loteria Esportiva -, sexta e sábado – pequenos furtos e agressões. Na Zona Norte, a repressão alcança em maior número traficantes de tóxicos e ladrões de casas e apartamentos; no Centro, vadiagem e assaltos menores; e na Zona Sul, as prostitutas e os pivetes. Quando chove, o índice de criminalidade cai acentuadamente, e sobe no verão.

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jornais

Na Estação D. Pedro II, da Estrada de Ferro Central do Brasil, os jornaleiros “casam” os suplementos dos jornais e os dividem. Os matutinos e revistas seguem para os subúrbios. O movimento começa à meia-noite e termina às 4h. Os passageiros são poucos e refestelam-se nos bancos à espera do trem.

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hospital

O Hospital Getúlio Vargas, na Pena, atende a uma população de 1.800.000 pessoas. As maiores incidências são de atropelamentos, lesões corporais e subnutrição. No Miguel Couto, no Leblon, os médicos e enfermeiros dão assistência a cerce de um milhão e meio de moradores espalhados pela Zona Sul. O Serviço de Emergência tende, principalmente, a acidentes de trânsito e agressões físicas. No Souza Aguiar, no Centro, pouco movimento.

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lapa

A Lapa acabou. O antigo bairro boêmio do Rio hoje é freqüentado por mendigos e uns poucos malandros. Os cabarés fecharam suas portas. Boêmios famosos se aposentaram. Só restam os saudosistas, a lembrar o passado.

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churrascaria

As grandes churrascarias são atualmente os locais de reunião de famílias numerosas. Lá, além da comida farta, assistem a shows de artistas famosos, gastando em média Cr$ 70 por casal. É o programa da moda carioca.

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O novo traçado da praia de Copacabana favoreceu em muito seus freqüentadores, mesmo os da noite, que ocupam bancos e deixam o tempo passar contemplando o mar. Na calçada, a luz dos bares; na areia, a sombra dos pescadores.

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aeroporto

O Aeroporto Santos Dumont fica praticamente deserto depois da meia-noite. O movimento volta ao normal às 6 h, com os vôos domésticos. No Galeão, realizam-se algumas decolagens e aterrissagens pela madrugada.

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Após uma noitada, a fome aperta. O jeito é fazer uma boquinha numa das dezenas de carrocinhas paradas ao longo das praias. Numa delas, Antônio José, de 16 anos, vende sanduíches e refrigerantes a fregueses sem muita pressa. No verão, o estoque acaba logo e “dá para dormir um pouco”.

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balsa

As barcas reduzem o número de viagens entre Rio e Niterói – apenas de hora em hora, de meia-noite às seis. O fluxo de passageiros é maior partindo da GB. Em maioria são noctívagos retardatários.

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Noite de verão, tempo de comida leve. Um sanduíche, refrigerante – se possível com brisa de praia. Leblon, Ipanema, Copacabana – aqui mais perto. Outra boa pedida é esticar até a Barra da Tijuca.

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porteiro

Miguel dos Santos, 71 anos, vê a noite passar tomando conta da portaria de um edifício elegante da Z.S. Há 13 anos. Quer se aposentar, para “dormir com a cidade”.

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