Algodão Doce (por Arlete Bergamo)

carloseduardogoncalves

04 Agosto 2015 | 10h48

Ele chegava sem alarde. Quando estávamos brincando na rua e ele era visto, logo a notícia se espalhava entre a criançada. E ele era sério, quase mal encarado, como se vender o seu produto fosse um fardo pesado e nós os culpados pela trabalheira.

 Os outros vendedores de guloseimas faziam muito barulho e sempre sorriam pra nós; cornetas, reco-recos, gritos, apitos, valia tudo pra chamar a atenção. Vendiam pipoca, sorvete, beiju, quebra-queixo, ou ainda doces de abóbora, coco, batata doce, e também pés de moleque, paçoquinhas. Gostávamos deles também, mas sempre reservávamos as poucas moedinhas disponíveis para “ele”.

 Quando nos apercebíamos da sua chegada logo uma fila se formava perto do carrinho. Era parecido com o carrinho do pipoqueiro, mas tinha suas diferenças. Ele acendia um tipo de fogareiro em baixo; na parte de cima tinha uma espécie de tigela com um cone no meio onde ele punha açúcar. Daí ele puxava um banquinho e se sentava, punha os pés em pedais escondidos debaixo do carrinho e começava a pedalar, e a tigela ao redor do cone começava a girar. Em pouco tempo a mágica acontecia. No começo parecia que fiapos de nuvem se formavam na tigela, e daí ele pegava um palito e começava a enrolar os fiapos, até que uma nuvem bem branquinha estava enrolada no palito. E que delícia! Puro doce com muita magia! Cada um pagava a moeda para o homem sério, e saía feliz com o seu doce mágico.

 Muito tempo depois alguém me contou que o processo consistia só em derreter açúcar e fazê-lo girar para que os fiapos esfriassem e se transformassem na nuvem branca. Foi uma pena; e agora, além da máquina que faz girar a tigela, fazem algodão doce colorido!

 Para mim, o algodão doce perdeu sua magia.