Bela, Recatada e do Lar: um comentário

carloseduardogoncalves

16 de junho de 2016 | 14h51

MISTÉRIOS

Pelo que entendi, ela é a Economia. E ele, quem seria? O leitor? Um colunista? Um economista? Um estúpido genérico?

NON-SEQUITUR, DETOUR RAIVOSO

Minha primeira pergunta: qual o propósito de associar a nova presidente do BNDES (torçamos para que não seja apenas interina, dada sua enorme competência) à Thatcher? Tentativa de ataque pessoal? Prática, alias, que a colunista da FSP condena em outros colunistas (colunista, economista, o estúpido será?)?

A redação, além de tudo, enfeiada com esse non-sequitur raivoso.

POBRE MARGARETH

Margareth pegou uma Inglaterra decadente e semeou as raízes do desenvolvimento. Os ingleses de hoje agradecem suas privatizações. Margareth tinha uma cabeça liberal demais para minhas preferências. Mas percebeu que há coisas onde o Estado não deve se meter. A Inglaterra, nesses 30 anos, evoluiu mais rapidamente que o resto da Europa.

HAYEK E MILTON VS. LEVIATÃ

Hayek, ah aquele artigo de 1945, como é Belo e nada Recatado. Antes, ousado!

Curioso: muito da pesquisa dita heterodoxa hoje vem de Hayek, das suas ideias sobre a disseminação não centralizada das idéias.

Ninguém que conheço é estúpido (no pun intended) a ponto de vender a idéia de que se submeter ao Estado enseje falta de liberdade. De onde saiu isso? O Estado para os economistas mainstream é justamente onde a liberdade individual é depositada, e em algumas dimensões constrangida, em prol do bem comum. Friedman e Hayek — vilipendiados no artigo de Laura na FSP — entendiam isso perfeitamente. Pouca atenção às falhas de mercado por parte deles? Concordo. Muita preocupação com o Leviatã? Verdade. Mas naqueles anos, falhas de governo eram gigantescas: comando e controle, milhões de assassinatos nas Ruas, nos Lares, em nome do bem coletivo — ó maior dos oxímoros. Fazia sentido se bater contra isso? Surement!

Tampouco conheço alguém na equipe econômica do governo interino que seja contra o Estado garantidor das demandas da população. Ou algum neoliberal (termo que não diz muita coisa a quem estuda economia) que seja contra isso.

DEDO NO OLHO NÃO VALE

Atribuir inflação alta do mês passado e rombo fiscal ao governo interino é algo que ultrapassa os limites do razoável. Minha filha de 10 anos entende que se eu assumo o commando em t=0, os dados relativos a t=-1 (alô, Farias!), ou que foram gerados pela integral dos descaminhos até t=0 não podem ser culpa minha. Sugerir isso é desonestidade intelectual, não vejo como colocar isso de outro modo. Mesmo na Guerra há regras que precisam ser seguidas. Mesmo no octógono não vale dedo no olho.

INFLAÇÃO É DA RUA, AJUSTE FISCAL É DO LAR?

Não sejamos ingênuos a esse ponto: não há agenda ideológica de Estado Mínimo em curso. O governo do Brasil arrecada uns 37% do PIB.  Neoliberal??? O que há é uma tentativa de impedir o país de quebrar — e que talvez nem funcione. Não exagero, sou comedido, recatado, do lar! Div/PIB=70%, juro real à frente: uns 4%? Crescimento otimista à frente: uns 2%? Vejam só: (4%-2%)*70% = 1.4% de superávit necessário para impedi-la de crescer. Hoje temos -2.5%. Precisamos de uma Bela virada de 4% do PIB.

Ou isso, ou inflação, ou calote. A inflação é da rua ou do lar? É bela ou feia? O calote dificulta o crescimento. Ser razoável é ser recatado?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Menos aleivoisias, mais substância, por favor !

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

Hayek, 1945, American Economic Review. “The use of knowledge in society”.

Friedman, 1962. “Price Theory”, Aldine Publishing.

 

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