Belluzzo e a volatilidade

carloseduardogoncalves

21 Março 2016 | 15h47

Recentemente, o senhor Belluzzo atacou a política econômica da curta administração Levy mais ou menos nos seguintes termos: “não é pra fazer tudo que o Mercado quer, é para dar uma enrolada, dizer que vai mas não vai, prometer e não cumprir”.

Belluzzo está certo quanto ao primeiro ponto. Fazenda e BC não tem que fazer o que o Mercado quer. Não estou sendo irônico, essas instituições precisam trabalhar para o bem da sociedade, mantendo a inflação estável, evitando que a dívida tome trajetórias preocupantes, entre outras coisas mais que me furto a discutir aqui.

E como tomar decisões, por exemplo como decidir sobre os rumos da taxa Selic? Observando a trajetória de diversas variáveis econômicas, recorrendo a modelos estatísticos para entender as inter-relações dinâmicas entre elas, empregando o bom e velho senso, discutindo com gente de dentro e de fora do governo, de dentro e de fora do país, etc.

Uma mistura de técnica e arte, para resumir.

Obviamente, nada disso envolve tentar “enganar os mercados”, falar uma coisa e fazer outra com intuito de ludibriar. Vejam bem, o BC pode sim mudar de opinião, pode sim decidir contra o consenso dos economistas de Mercado (que não são uma força do mal, vale dizer). E deve fazê-lo quando julgar necessário, apresentando para isso explicações de modo claro e objetivo — não tentando esconder seus propósitos e porquês.

Uma instituição de Estado, como o BC, não pode fazer o que recomenda Belluzzo: agir malandramente. Eticamente, não soa lá muito correto, hão de convir meus poucos leitores. E como se isso não bastasse, é ruim para a Economia. Mercados financeiros vivem à base de expectativas — pelo simples fato do preço de um ativo depender diretamente do valor presente de seus retornos esperados para o futuro. O que se ganha em torná-las ainda mais voláteis, propositadamente? A razão “ruído/fundamentos”, como dizem os economistas, só aumentaria com a tal tática da malandragem.

Clareza de comunicação e de propósitos não eliminam a volatilidade, é fato, mas como dizia a avó da minha esposa, muito ajuda quem não atrapalha.

Por fim, um pedido à heterodoxia nacional: o debate é benvindo, mas o debate sobre as ideias, técnico, sem ataques pessoais como os costumeiramente feitos por Belluzzo e Nogueira; sem cortinas de fumaça latinescas e emprego do estratagema 34. Um pedido aos alunos: peçam a seus professores explicações concretas, confrontem-nos com os dados, com o argumento oposto. Repilam adjetivações como “a fulana não sabe nada disso porque é apenas uma economista”; ou “a tese do ciclano é um exemplo do nefasto neoliberalismo de coxinhas”.

Os ortodoxos — categoria na qual me incluo — não são donos da verdade. Mas os heterodoxos não detém o monopólio das boas intenções e não podem sob esse guarda-chuva fugir ao debate técnico, frio, aquele sem grandes paixões mesmo. Se assim ainda fazem em muitas ocasiões, é porque ou estão em defesa de interesses próprios, ou ignoram o que se passa no mundo academico fora dos portões da sua escola. Ou os dois.