Belluzzo, Garcia e a Dívida

carloseduardogoncalves

20 Junho 2016 | 16h01

Sempre encontro dificuldades para entender os textos do Belluzzo. Isso pode ser sinal de que se trata de um gênio (ainda não reconhecido como tal pela academia internacional) com ideias inovadoras, ou, mais provavelmente, de um cavalheiro com formação deficiente (em Economia, não em latim, literatura, sociologia, etc).

Belluzzo se queixa do texto de “um” economista chamado Márcio Garcia, esse sim conhecido dos acadêmicos e policymakers, no Brasil e fora. Usa de sarcasmo, como sói, mas se atrapalha nos argumentos e sequer percebe. Do que consegui inferir da peça de redação do nosso latinista predileto, o seu ponto central é: “ora, senhor Garcia, a Selic não é o juro que indexa a maior parte do estoque de dívida, então faça-me o favor de não fazer conta errada (tradução livre)”.

Muito bem. Algumas linhas mais adiante, Belluzzo — que agora chama De Bolle e o FMI para dialogar — parece sugerir que o BC deveria reduzir os juros (a Selic) justamente porque o serviço da dívida é muito elevado no Brasil. Perceberam o quixotesco? Caro cavaleiro andante, ou a Selic não é importante, ou ela é importante para a dinâmica da dívida. Ela não pode ser ambas as coisas ao mesmo tempo.

E ela é importante, De Bolle está correta ao diganosticar que juro real elevado nesse momento é perigoso. Na parte do texto usada para uma suposta gozação da conta de padaria feita pelo Márcio Garcia, Belluzzo parece se esquecer de que os juros básicos norteiam as outras taxas de juros da economia. Olvida-se (gostou?) que existe uma coisa chamada de Equação de Paridade que meio que iguala exante as taxas de retorno esperadas.

Por exemplo, a dívida prefixada vai refletir os juros esperados para o futuro. E quando o futuro se mostrar diferente do esperado, as novas emissões de dívida prefixada vão incorporar esse descolamento. Ou seja, a defasagem entre o indexador de um título e de outro não é permanente. Fosse o grosso da nossa dívida dívida de longo prazo, Belluzzo (o que critica Garcia, não o outro) estaria mais perto da verdade: demoraria mais para a nova Selic se fazer sentir na taxa dos papéis prefixados. Belluzzo, peça para Sancho adicionar esses dados na sua planilha!

A crítica heterodoxa no Brasil é uma piada de mau gosto…sera que poderíamos importar heterodoxos do exterior? Thaler? Rodrik? Krugman? Ou tem lei de conteúdo nacional?