chef de cuisine?

Pode fazer receita, mãe?

carloseduardogoncalves

05 Maio 2015 | 22h40

Hoje às 5hs da manhã, cai da escada. Ou melhor, cai na escada, pois fui deslizando por uns seis degraus, tendo como quilha de navegação meu cóccix. Tudo escuro, uma carga de ansiolíticos nas veias, e uma meia social lisa se juntaram a um chão recém encerado para provocar a tragédia. E para quem não sabe, o cóccix fica perto dos testículos, que ao fim e ao cabo, infelizmente, também foram atingidos. Falarei, portanto, de dores, e não de dor no singular.

Fui para faculdade onde trabalho com as tais dores, trabalhar e resolver burocracias. Liguei logo cedo para os EUA para resolver uma pendência importante e depois de uma meia hora no telefone com um norte-americano mal educado como se fosse nova iorquino, e falando ainda mais rápido do que um nova iorquino, minha cabeça passou a doer, fracamente, mas naquele latejo ritmado que não passa.

Ainda pela manhã as coisas se complicaram, pois fui incapaz de reproduzir uma prova matemática de um complexo modelo macroeconômico, que eu julgava-me plenamente capaz de reproduzir mexendo uns y para cá e uns x para lá. Não saiu a porcaria do resultado. O ego (talvez seja grande demais)doeu muito, pois mesmo que muitas vezes ocorre de estar o autor do livro errado, dessa vez isso não podia ser verdade, dado que a tal condição à qual ele chegara fazia todo sentido, enquanto a minha não. A cabeça passou a doer mais fortemente por volta das 11.30, portanto.

Com tantas dores, inclusive de estômago, fui almoçar e comi um apetitoso Ratatouille, lembrando do ratinho no boné do rapaz francês que falava em inglês — foi o ponto alto do meu dia. Levei claro meu Kindle, para adiantar a leitura.

Mas, logo depois da refeição, cometi um equívoco: fui andar pela faculdade depois do almoço, lendo no kindle, como sempre faço: para mudar de ares, para me exercitar sem perder tempo de leitura. Isso, descobri mais tarde, acentuou minha dores associadas à queda na escada.

Não pára por aí, meus amigos.

Ler e andar é perigoso, mas nunca me acidento. Hoje, contudo, na esquina da Politécnica dei uma topada com o dedo médio numa pedra que não era para estar onde estava (ainda tive o espírito de refletir por um instante: “no meio do caminho havia uma pedra”). Não foi trivial, “pegou de jeito”, como dizem,  e quando tirei a meia para ver, já sentado na poltrona do meu escritório, estava com o dedo do meio do pé roxo e bastante dolorido. Em resumo: aquela puta dor que sempre passa na hora, dessa vez não passou.

Voltei para casa muito combalido, e como estamos sem empregada, depois de comer com a família, fui lavar a louça. E foi quando iniciava essa tarefa que para mim é relaxante, que ouvi meu filho perguntar à minha mulher: “mãe, posso brincar de fazer receita”?  Um calafrio perpassou meu corpo todo dolorido. Fiquei paralisado, sem reação. Uma fração de segundos passou e …”sim, pode”. Eu queria gritar que não, que a cozinha ficaria em estado de guerra, melecada por todos os cantos. Eu queria falar das minhas dores e aflições, desde o cóccix, passando pelo nova-iorquino e chegando ao dedo do pé. Mas calei-me: havíamos combinado que como regra geral o comando de um não desfaria o do outro. Confunde as crianças, dá choro (que aumenta a dor de cabeca) e brigas e, no limite, se repetidamente, até separação.

Há contudo um motivo adicional para eu ter decidido observar passivamente a cozinha se transformando em insuportável bagunça. Secando um prato e observando meu moleque, pensei: e se houver ali uma fagulha de grande cozinheiro? e se ao brigar pela cozinha, por minhas dores, eu terminar impedindo-o de se transformar, no futuro, em um grande chef de cuisine, em Londres ou Paris (eu poderia inclusive ir visitá-lo no futuro!).

Não, eu não tinha direito de roubar-lhe essa oportunidade. Aquela intervenção podia ser decisiva, pois intervenções na infância são em geral definitivas. Engoli com honradez minhas dores e meu mau humor, e segui simplesmente lavando as louças, as aumentadas e melecadas louças.