Dona Ilza

carloseduardogoncalves

05 Agosto 2015 | 18h28

Eu me lembro dela na cozinha entulhada, preparando bolinho de bacalhau, mancando do joelho, criando coelhos no patio interno, comprando bijuterias vagabundas, querendo namorar aos 70 anos…diferente!

Vivia perto do morro, sozinha, num apartamento terreo, guardado por um portao de ferro preto atras de outro portao de ferro preto. Cadeados, encadeados.

Ela ralhava com os vizinhos a toda hora. A dona Ilda (favor nao confundir o “d” com o “z”). Uma negra gorda. Um adolescente maconheiro e tatuado. Eles existem ainda? Existiram de fato?

E a gente correndo no patio, fechado por um muro em semi-circulo furado em quadradinhos. Varios carros estacionados, carros de outra epoca.

Nos recebia sempre com doces, quando eramos pequenos. Ou com uma tralhinha qualquer, “made in china”. Era seu jeito. Nos queria bem, apesar de ser muito independente, avessa a grudes.

Depois, quando crescemos, nas vesperas de provas importantes ela sempre dizia: “nao se preocupe, pois vovo vai rezar”. Ela tinha fe. E eu acreditava na fe dela, que a reza dela ia me ajudar. E isso era muito bom.

Ai um dia ela foi nos visitar e, ao sair do carro, caiu. Minha mae chorou muito na ocasiao, mas eu nao entendi por que. Todo mundo escorrega, nao?

A queda, um prenuncio? A doenca que se instalava? A filha percebia, as filhas sempre possuem muitos sentidos.

Foi internada no hospital da Aeronautica; e foi a filha que a cuidou, todos os dias, com carinho, incansavel. A neta ajudou como podia, mas estava de mudanca para bem longe. E eu somente fui visitar umas duas ou tres vezes, imprestavel.

Numa certa manha, ela disse ter visto o marido de branco, com amigos. Disse isso para a filha dela. E ao entardecer do mesmo dia, se foi.

Deixou a pobre filha, inconsolavel. Mas como ela era forte e resiliente, aos poucos se ergueu, e foi adiante, sempre em frente, ate virar ela mesma avo!

A avo dos meus filhos.