Escrivinhador renitente

Eu não deveria escrever; vocês poucos aí erram ao me ler

carloseduardogoncalves

26 Setembro 2014 | 12h34

Torna-se um vício isso de escrever. É estranhamente difícil abandonar, mesmo para um neófito ainda a tempo de reverter à fé antiga e mais promissora; mesmo quando tem-se tantas outras coisas a fazer — ah, o poder redentor das coisas importantes nunca deveria nos abandonar ao relento! A escrita literária em 2014 é uma atividade totalmente prescindível, convenhamos. E não apenas no plano individual. São tantos os livros muito bons escritos, que ainda que todas as não-paridas histórias permanecessem nesse estado de gravidez eterna ou sofressem abortamentos voluntários na cabeça-ventre dos escritores, a humanidade não correria qualquer risco de se bestializar por ausência de lirismo.

Para quê mais? Basta ler e reler e treler Homero, Proust, Machado, Tchekov, Kafka, Saramago, Tolstói, e por aí vai. De fato, o comprimento da lista quase desautoriza meu ponto. Ok, que nos reste somente Homero então, somente o primeiro! Entendo o que você está matutando: “e ainda assim, paradoxos dos paradoxos, cinismo dos cinismos, ele está a escrever essas crônicas”. Por que isso se não preciso, se não sou um profissional da escrita e muito menos um gênio da escrita– o que torna a acusação que levanto contra mim mesmo ainda mais grave, ou “gravíssima”, como nas multas de trânsito (ponto de interrogação ficou longe, mas aí está ele) ?

Diga-me uma coisa: você fuma?