Lula da Silva

carloseduardogoncalves

01 Março 2016 | 17h06

Ingenuidade

Quando eu era moleque, na época em que morria o regime militar, tendo sido criado no seio de uma família tradicional, eu o via como o típico comunista comedor de criancinhas — coisas que ele definitivamente não era.

Percepção confusa

Depois, mais maduro, a imagem passou a ser outra: ele era um cara preocupado com o país, comovido e movido pelos flagelos dos mais carentes, vindo de baixo. Meio nervoso e confuso, verdade, e falando coisas que me pareciam impropérios, mas que ecoavam algum fundo de verdade…

Um desinformado do bem?

Mais tarde ainda, já com alguma bagagem intelectual, Lula tornara-se para mim defensor da honestidade na política, um sujeito que não entendia bugalhos de nadica, mas genuinamente bom e carismático.

A (curta) lua de mel

Aí em 2003, eu me surpreendi: ele vira presidente e mantem o país no rumo correto! Largou de lado a retórica combativa e sem fundamento, abandonou o pobre do Mercadante na sarjeta, e chamou o Doutor para tocar a Economia. Confissão: arrependi-me profundamente de ter votado no intervencionista-chatonildo José Serra naquelas eleições.

A ruína moral

Mas era ilusão. Os fatos tenebrosos de 2005 — ano do mensalão — e tudo o que testemunhamos, estupefatos, desde então: Petrolão, Lava Jato, apartamento com mármore de carrara e sítio de amigo visitado 111 vezes, puseram o rei nuzinho da Silva. Pode parecer inacreditável, mas Luis Inácio Barbudo, aquele que um dia mencionara a existência de 300 picaretas, parece estar metido em muitas tramas de picaretagem. Ainda que não termine na Papuda, sua imagem vai afundando lentamente em areia movediça, à vista de todos.

O ocaso

Na sua triste descida rumo ao Aqueronte, o sindicalista de antanho não tem sido capaz de demonstrar a mínima dose de hombridade. No olho do furacão, nosso anjo caído concita seus religiosos seguidores a enfrentarem vigorosamente uma suposta tentativa de golpe das (z)elites. Opta, inescrupulosamente, por colocar a sociedade em estado de conflagração para assim desviar a atenção do que parecem ser seríssimos crimes. Mas, Lula, deixa eu te dizer uma coisa que você talvez já saiba: a elite, meu caro, é você mesmo. Não uma elite qualquer, mas a do pior tipo.

Daqui a 90 anos, num livro de história (wishful thinking?)

Antigamente, no Brasil, a população acreditava que um Messias nos salvaria de todos os males que vinham carcomendo o país desde 1500 (1808?). Movido por tal superstição o povo brasileiro elegeu, em 2002, um homem humilde (que poderia ter sido filho de um carpinteiro) para presidente do Brasil. Não sabiamos o que estávamos fazendo, ó Pai.

Alguns anos depois, com a economia naufragando, mosquitos amaldiçoados picando-nos até a morte (nova praga divina?) e uma ampla rede de corrupção sendo desbaratada, descobriu-se que o auto-intitulado “pai dos pobres” havia se lambuzado deveras nas irresistíveis delícias do poder. Hoje em dia, contudo, graças a esse traumático episódio poucos entre nós creem nos poderes redentores de um novo Messias. Sim, a perda da ilusão foi dolorosa para o arquétipo dessa nação cristã-molemente-macumbeira, mas ela nos trouxe um grande benefício: a prosperidade.