Maria da Conceicao da Tavares existerent (em latim)?

carloseduardogoncalves

28 Dezembro 2015 | 17h46

Tenho um amigo que diz “nao acreditar em Maria da Conceicao Tavares”. Ele usa para isso a seguinte logica: eh impossivel que tantos absurdos possam um dia terem sido ditos por um ser humano real, e unico. Ergo, segue ele, MCT nao existiu de verdade! A teoria, convenhamos, eh impecavel, mas a evidencia empirica afirma o contrario.

Em 2003, a portuguesa-matematica-educadissima deu uma entrevistinha para a FSP. Os polemicos “Porco” e “Leitoa” sao epitetos carinhosos perto da descricao que a senhora faz do secretario de politica economica de entao. Meu amigo Marcos Lisboa eh chamado carinhosamente de “menino”, “debil mental”, “semi-analfabeto”, “pateta” que “nao tem direito de opinar”.

Leia por voce mesmo, eh leitura fluida, nao esta em latim nao.

Folha – Causa surpresa saber que num governo de esquerda há eco para esse tipo de proposta…

Tavares – O eco foi de raiva. Dentro do programa [divulgado pelo Ministério da Fazenda] há gente infiltrada que escreveu uma porcaria chamada Agenda Perdida [documento escrito pelos economista José Alexandre Scheinkman, Ricardo Paes de Barros e Marcos Lisboa], feita por um grupo de débeis mentais do Rio de Janeiro. Não são tão débeis mentais porque, além de fazer a Agenda, montaram um instituto, que é uma ONG, que recebe em torno de US$ 250 mil do Banco Mundial para fazer o tal estudo especial para focalizar.
Assim como tivemos a desgraça de, no governo Fernando Henrique Cardoso, termos os economistas da PUC [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro] no programa econômico, desta vez temos também os da Fundação Getúlio Vargas, e não apenas infiltrados na área econômica. Esse Marcos Lisboa é um garoto semi-analfabeto que está encarregado de fazer política econômica, coisa que ele jamais fez na vida. Quiseram vender a Agenda para o PMDB, que não comprou, fizeram o mesmo com o Ciro [Gomes, candidato derrotado pelo PPS à Presidência e hoje ministro da Integração Nacional].
É um espanto que esse grupo de garotos espertos faça com dinheiro público e do Banco Mundial uma nova Agenda que proponha para o Brasil -o único país que tem políticas universais em saúde, no ensino público básico e no INSS, três redes universais que nunca ninguém conseguiu desmontar- a focalização dos programas sociais.

Folha – Apesar das críticas ao Marcos Lisboa, a política econômica do governo está sendo bem-sucedida…

Tavares – O Marcos Lisboa tem 38 anos e foi colega do meu filho na escola. Foi meu aluno, era um bom menino que adorava fazer modelos matemáticos e adora até hoje. Isso tem tanto a ver com política social quanto coisa nenhuma. É um direito do ministro levar quem quiser para a sua assessoria econômica, mas não é direito de um assessor palpitar sobre focalização e Agenda Perdida.

Folha – A sra. acredita que esse documento tenha sido feito à revelia do ministro Palocci?

Tavares – Eu não acho nada. Sei que quem escreveu o documento foi ele. O ministro Palocci escolheu para seu assessor econômico e do Tesouro [Joaquim Levy, ex-chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento no governo FHC] quem bem entendeu. Não são pessoas da confiança do PT e não têm nada a ver com o partido. É gente de quem ninguém nunca tinha ouvido falar. O Marcos Lisboa não tem a menor experiência de política econômica. Já o ministro é um cara inteligente e tem experiência. Então pensei: ele colocou lá uns papalvos [patetas sem importância nenhuma porque é esperto e não vai ouvir conversa nenhuma. Além disso, o ministro Palocci conversa com diversos economistas: do Delfim [Netto, deputado pelo PP -antigo PPB- de São Paulo e ex-ministro da Fazenda] aos tucanos e a nós. O ministro Palocci fala com todo mundo.

Folha – Defender a focalização dos programas sociais é ser liberal?

Tavares – Estive em São Paulo [depois da divulgação do documento” e tive de ouvir o dr. Delfim Netto defender a Constituinte de 1988, onde estão consagrados os direitos universais nas três áreas: saúde, assistência social e Previdência Social. Isso vinha sendo construído como políticas universais desde o tempo da ditadura, logo, não é um problema de ser conservador. É um problema de ser pateta ou de má-fé. E esse pessoal está tentando dar as rédeas da política social do governo.
É evidente que os ministros da área social estão possessos, mas não vão armar uma briga com o ministro Palocci, a quem terei o prazer de, assim que for a Brasília, ir visitar para perguntar o que é aquilo. Como um documento da Fazenda fala sobre focalização?

Folha – Há algum outro aspecto que a sra. critica no documento?

Tavares – Ele desmente o diagnóstico de todos os economistas bons desse país que colocaram no estrangulamento externo, no aumento dos passivos externos que o doutor Fernando Henrique nos deixou, os problemas da economia. Diz que não é nada disso e que o problema na verdade é que o governo passado não fez o ajuste fiscal, que tal? Um garoto falando contra o ponto de vista de todos os grandes empresários e economistas como Delfim Netto, [Luiz Carlos] Mendonça de Barros, do José Serra, do Luiz Carlos Bresser Pereira, do Yoshiaki Nakano, de Campinas inteiro… Se há unanimidade no diagnóstico econômico é que temos um problema de estrangulamento externo. É isso que nos faz tolerar a habilidade política do ministro Palocci em contornar uma situação que, em setembro, era ruinosa.

Folha – Apesar do que a senhora fala de Marcos Lisboa, a taxa de câmbio recuou, a inflação dá sinais de queda…

Tavares – O garoto não faz política econômica. Quem faz é o ministro, o presidente do Banco Central, a diretoria do BC e aquele garoto do Tesouro [Joaquim Levy], e não aquele menino [Lisboa], que não tem a menor condição de fazer política econômica por não ter experiência. O que ele faz são os documentos, aquela babaquice que o Consenso de Washington quer que a gente aplique.
Ele que faça os documentos que quiser. Diga-se de passagem que o diagnóstico [contido no documento “Política Econômica e Reformas Estruturais”] é a gargalhada do Delfim e de todo mundo porque revela a mais profunda ignorância…