Me é difícil vislumbrar…

carloseduardogoncalves

05 Fevereiro 2016 | 13h52

Em artigo recente publicado na FSP intitulado “Dominância Política”, Laura Carvalho afirma que não é difícil vislumbrar a que interesses o BC brasileiro estava servindo durante o (agora findo) ciclo de aperto monetário.

Esse tipo de argumentação nebulosa-conspiratória é desinformativa e perigosa. Apesar de ter deixado os supostos beneficiários no ar, creio que sei quem Laura pensa serem os beneficiados: o genérico sistema financeiro nacional*. Primeiro de tudo, essa é uma acusação bastante séria — por muito menos o senhor Alexandre S. quase tomou um processo nas costas (não aceito pela Justiça). Será que o que vale para economista ortodoxo não vale para economista heterodoxo?

O BC pode acertar ou errar (errar tem sido mais comum nos últimos 5 anos), mas daí para dizer que ele serve interesses é um grande passo. Sou critico contumaz da política monetária praticada nos anos de 2012 e 2013, mas nunca faria a ilação de que ela servia a interesses inflacionários escusos. Acho que Tombini e a diretoria erraram feio, mas sem más intenções. Não posso acreditar que eles queriam beneficiar aqueles que ganham com a inflação alta e prejudicar os mais pobres.

Não menos importante, se você parar para pensar por um segundo, o argumento não fica de pé. Até 2 meses atrás o BC servia aos “mercados”, mas dois anos atrás o mesmo BC e o mesmo Tombini não davam bola a esses interesses. E agora, novamente, eles não servem mais! Temos então que: no começo de 2011, servia; do meio de 2011 até 2014, não servia; de 2014 até duas semanas atrás, servia de novo; e, finalmente, agora, já não serve mais. Parece razoável???

Uma narrativa mais plausível que a de servir ciclotimica e esquizofrenicamente interesses é: no começo de 2011 a inflação vinha forte e o BC elevou os juros; no meio de 2011 o BC achava que o mundo ia acabar e derrubou os juros; em 2012-2013 o BC quis experimentar uma política heterodoxa para ver se a tese de dois equilíbrios prestava; em 2014 e 2015 o BC se assustou com o despertar do Dragão inflacionário e elevou os juros; em 2016 ele estancou a alta de juro dado o tamanho da recessão e a montanha da dívida.

Melhor que a conspiração proposta no artigo da FSP, não?

* A tese de que os bancos ganham com juros altos precisa, além de tudo, ser melhor destrinchada. Ela não é nada óbvia por dois motivos: primeiro, os bancos precisam captar recursos para investir em títulos públicos, e quando o juro básico sobe, o custo do funding também se eleva. Segundo, juros altos são prejudicias para as atividades de crédito por acentuar os dois problemas de assimetria informacional que grassam nesse setor: (i) com dívida mais cara os tomadores podem escolher projetos mais arriscados na expectativa de retornos mais altos se a coisa funciona (dado que suas perdas são limitadas, eles entram numa de gamble for resurrection; perigo moral) e (ii) o conjunto de tomadores a taxas mais altas é de pior qualidade, dado que bom devedor foge de dívida cara (seleção adversa). Via esses dois canais, juros altos atrapalham a vida dos bancos.