Mia Couto e o cão arfante

Os poderes do bruxo-branco-preto Mia Couto

carloseduardogoncalves

11 Agosto 2014 | 14h50

O horário, o local e a atividade, os de sempre. Entre seis e meia e sete e meia da manhã, na ruazinha deserta do condomínio, para baixo e para cima empurrando carrinho de bebê e tentando ler algo. A concentração, dessa vez, era máxima — o carrinho rolando no automático e a bebê bem atada lá dentro. Comigo ia, na mão esquerda, um livro do Mia Couto, que não é apenas um escritor, mas um bruxo, um bruxo moçambicano preto-branco. A estória abensonhada ia me transpondo para outro universo, inusitado, maravilhoso e idiossincrático.

Pois eu ia lendo a tal estória, me sentindo abensonhado como ela, quando ouvi um arfar de cão, um arfar alto e claro que parecia vir de um cachorro de raça, saudável (imaginei-o peludo e belo, com a língua de fora, solicitando carinhos e cafunés). Sim, “imaginei”, pois de fato eu não o via, apenas escutava a proximidade de sua língua posta para fora da bocarra. Não, meus caros, não estou de invencionices. Vejam bem vocês: eu de fato escutava um arfar do meu lado esquerdo naquela manhã, completamente real, mesmo estando a rua deserta, sem vivalma (de gente ou bicho) circulando — tratava-se de um domingo de agosto, todos os vizinhos aninhados nas suas casinhas, protegendo-se do frio, querendo nunca mais levantar, rezando para o mundo acabar e a segunda-feira não chegar.

E aquele arfar invisível me seguia, para cima e para baixo, sem dar com as fuças à vista.

O que seria? Com miolos sensíveis, conjecturei que aquilo tinha algo a ver com o Mia Couto propriamente, com esse irreal encantador de palavras. Fabulava para fora do livro, através de um cão mágico?! Queria me comunicar algo? Pensei que o cão arfante seria uma criação sua, escondido dentro daquelas páginas, talvez dentro daquela igreja que fazia parte da estória, escondido do padre e da mulher-pássaro e até dos leitores ordinários, paradinho nas entrelinhas daquelas fileiras de assentos e perceptível apenas aos que lessem a estória abensonhada em estado de absoluta compenetração! Ah, era bem possível, conclui. Mas, claro, como me considero são e descrente, tive medo dessa hipótese impalpável e assim que a expeli horrorizei-me completamente, não soube explicar-me a mim mesmo e enfureci.

Estaria enlouquecendo?

Precisava urgentemente entender aquilo, de onde vinha o som sem corpo ou bafo, que cão seria esse e por que ele arfava todo invisível a meu lado esquerdo – pois essa certeza eu tinha: um cão me acompanhava verdadeiramente, senhores. Reequilibrando-me na minha consciência, espiei desavergonhadamente por dentro dos portões das casas adjacentes, mas nada provinha daí. Os poucos cães do condomínio provavelmente dormiam, como seus donos, alguns seguramente com os seus donos. Confuso, segui empurrando o carrinho com a mão direita e segurando o livro semiaberto com a esquerda (num dado momento, quando já havia acabado de ler o conto, a palavra inglesa “ajar” se embrenhou na minha cabeça com muita virulência, como se quisesse me dizer algo, mas o recado era incompleto, impreciso), e eis que me veio o óbvio: algo preso nas rodas do carrinho seria a explicação! Inclinei-me e aproximei meu ouvido então das rodas, pelo lado esquerdo, com muita atenção e cuidado para não acordar a bebê, a ver se seria daí que procedia aquele arfar que eu já concluía racionalmente falso, uma imitação engendrada ao acaso por uma folha presa, um pedaço do lençol enganchado numa reentrância qualquer. Mas não, meu surto de consciência havia me levado açodadamente a uma conclusão equivocada: não era nada disso, nenhum indício de uma intervenção física óbvia havia ali. Algo mais profundo ocorria, certamente, certamente. Tomado de certo temor e apreensão reabri na página inicial do conto, reli apressadamente as linhas em busca de alguma referência a um certo cão arfante, mas nada encontrei.

Meu coração já batia fora do ritmo normal e, meio zonzo, decidi me refugiar dentro de casa novamente (a bebê já havia dormido há uns 15 minutos), movido por uma espécie de medo, a ver se aquele espectro sumiria uma vez fechada a porta bem real da minha casa e estando o ferrolho girado. Foi quando percebi — por que isso se deu apenas nesse momento precisamente é coisa para a qual não há explicações cabíveis — que a orelha da capa frontal do “estórias abensonhadas”, ao me deslocar e mover o braço esquerdo aleatoriamente, roçava quase perpendicularmente a primeira página do livro e produzia, nesse contato, a cópia perfeita do som de um arfar animal.  Era o livro que arfava.

Resta a pergunta (a mais importante!): quem produziu efetivamente – vejam, digo “efetivamente” — o arfar daquela manhã de domingo? Muitos a quem conto essa história dão de ombros e franzem o cenho quando os indago. Invariavelmente, resmungando, esses pequenos arautos do racionalismo que me  rodeiam por todos os lados respondem: “o livro, claro, a orelha contra a página, como você mesmo disse.” Toleima! Essa é uma resposta vazia, um truísmo oco. Quem produziu aquele arfar, eu vos digo agora: foi o senhor bruxo-preto-branco Mia Couto, lá debaixo de alguma palmeira, numa longínqua praia moçambicana. Abensonhado seja ele!