Motoristas do mal, ciclistas do bem?

carloseduardogoncalves

01 Dezembro 2015 | 17h02

Para um dos lados, o outro eh o diabo — e vice-versa, claro.

Eu digo que tem dos dois — quase uma obviedade, reconheco. Mas para os politicamente corretinhos, gente chata pra dedeu que nao fala nunca “matar dois passarinhos com uma cajadada so”, e sim, soltar dois coelhinhos de uma so vez, todos os ciclistas sao bonzinhos, civilizados, europeizados, verdinhos e etc.

Pera la: nao senhor!

baseado numa historia real, roman-a-clef (sempre quis poder escrever isso; como sou subdesenvolvido, acometido pelo famoso complexo de vira lata!)

Na madrugada de um dia desses, um amigo dirigia voltando para casa. O sinal abriu, mas vinha cruzando na frente dele uma colmeia de ciclistas. Milhares, como os gafanhotos biblicos. Os ciclistas, que andam sobre rodas tambem, nem tomaram nota: continuaram resolutos, destemidos, avancando (nao tenho cedilha, nao tenho acento e nem assento, nao me azucrinem, please) pelo vermelhao, com a ajuda de um agente destacado que se interpos corajosamente entre o carro do meu amigo-palhaco parado com vontade de chegar em casa para fazer xixi, e o cruzamento.

Meu amigo, vamos chama-lo aqui de J., irritadissimo, desceu do carro com um porrete nao mao, esperneando  e gritando: “voces estao desrespeitando a sinalizacao, isso nao pode, tem que respeitar o sinal (farol, semaforo)!”. O ciclista destacado, mestre de cerimonias da colmeia, olhou-o com a pose arrogante de intelectualoide e respondeu: “boa noite meu senhor, sim, boa noite”. Ao que o tal senhor retrucou: “boa noite my ass, mudderf..”. Ao que o ciclista treplicou: “nao falo ingles, senhor”. Ao que, ao que nada porque meu amigo-senhor-clown, a pedido da namorada, entrou no carro — pois nesse momento outros ciclistas grandalhoes e musculosos comecavam a parar e olhar para o senhor-palhaco (meu amigo) com cara sisuda e musculos tesos. Ao que meu amigo J., com as bochechas todas vermelhas e uma baba de raiva na comissura da boca pisou no acelerador (mas em ponto morto, em ponto morto!) e ficou ali uns 30 segundos no: “vuommm,vuommm”, seu carro transformado em uma especie de cachorro de lata que ladra mas nao morde, quer dizer, atropela. E ai o ultimo retardatario (no pun intended) passou, fez um sinal conhecido de todos com os dedos, e se mandou com o destacado guarda-de-transito-ciclista-desrespeitador-fora-da-lei na sua cola, esbocando um sorriso malefico para meu amigo J. e sua namorada apavorada (que fizera pipi na calca, nao se sabe se de medo ou por conta das cervejas, ou dos dois).

Horas depois, meu amigo era internado no hospital nossa senhora dos ciclistas com pressao altissima, vertigens e um inicio de alucinacao.

Hoje, ele passa bem.

Ciclistas do meu Brasil, meu queridos, eu sei que nesse pais tem muita gente que se acha acima da lei (mas alguns comecam a ir para a gaiola!), e que voces se acham muito bacanas, modernos, e tal e coisa, mas deixa eu dizer o ululante: a lei vale para todos. PARA TODOS (“o meu pai era paulista, meu avo pernambucano, meu…” e assim vai).