O acordeonista

carloseduardogoncalves

30 de outubro de 2014 | 08h38

Eu estava sentado, lendo Henry James. Ele, que há muito não encontrava, me viu e sentou-se a meu lado, “quanto tempo, hein?”, “ah, não havia visto você aí! como anda? notícias lá do prédio?”

No antigo prédio, um senhor já com quase 60 anos, aposentado precocemente, tocava todas as tardes de domingo o seu acordeão. Eu gostava muito de ouvi-lo, eu lá fazendo minhas coisas, lendo, trabalhando, ou embaixo com as crianças no playground, recebendo involuntário mas satisfeito aquelas notas agradáveis, melodias de outro tempo, portadoras de tanta nostalgia, calmantes naturais em meio a tantas pressas.

Ele era ranzinza sim, implicante com quase todos, mas, aparentemente, a mim ele se afeiçoava, sempre me dirigia a palavra com certo respeito, perguntava dos meus filhos, se lamentava do abandono dos seus. Sua mãe, uma velhinha de 90 anos, também morava no prédio, caduca já, capaz de resgatar apenas as memórias mais antigas, mas de corpo, no possível da idade, ainda saudável. Um dia, na porta do elevador, eu saindo ela entrando, disse-lhe: “gosto de escutar as músicas que seu filho toca aos domingos, são bonitas”. Ela então sorriu e entoou uma, gingou o corpo e antes que o elevador a levasse, teceu elogios maternos ao acordeão filial.

“Rapaz, tenho sim: o acordeonista morreu, subitamente”, “não posso acreditar! e a velhinha?”, “ela segue viva, vi-a hoje mesmo andando lá embaixo, olhos no chão”, “e ela, sabe?”, “não, todos dizem-lhe que ele foi viajar, e mudam de assunto”, “mais isso está errado!”, “pois é, mas é o desejo da família”.

No reencontro, imagino ele menos sisudo, tocando algo pra ela, e ela gingando, claro, feliz ao revê-lo. Queria nesse dia estar de volta ao antigo prédio, como mero visitante, para perceber no soprar do vento dominical, rodopiante e forte nos meses de inverno, as notas harmônicas e reconfortantes do acordeão.