O fumante

Pare de fumar?

carloseduardogoncalves

07 de outubro de 2014 | 14h13

Todos os dias que chego ele está em frente ao portão de ferro azul, fumando.

“Bom dia, professor”, ele fala já ao me ver. Se me nota quando estou próximo, sai um bom dia mais baixinho; se me vê ainda longe, aumenta os decibéis para que a saudação me chegue clara.

Todos os dias fumando. Sempre.

Disse-lhe certa vez: “Rapaz, por que você não abandona o cigarro? Isso te faz um mal danado”.

Ele respondeu: “Ah, professor, eu sei, mas é que sou tão feliz fumando meu cigarrinho de manhã e depois do almoço”.  E esboçou um sorriso tímido.

Passei a reparar com mais atenção na sua expressão de felicidade ao fumar, quase sempre sozinho, contemplando o céu, pensando talvez num amor qualquer, de hoje ou do passado, ou então curtindo antecipadamente a ida ao estádio para a partida de futebol no domingo, ou…

E o cigarro claramente ajudando-o a viver aquele espaçozinho de reflexão simples, de contemplação, catando memórias, dando sentido a sua vida. Como se daria esse exercício sem o cigarro? Teria aquela intensidade que eu podia reparar nos seus olhos?

Abandonei ciência e moral, desde então. Nunca voltei ao tema, e nunca voltarei.