Sensualidades acadêmicas

Olhares e carícias na academia...

carloseduardogoncalves

08 Agosto 2014 | 20h27

Fui andando até lá, lendo nas calçadas, arriscadamente. Precisava e preciso me exercitar; tenho hérnias.  Ao chegar, deparei-me com a mesma cena de sempre nesse horário peculiar de fim da manhã: meninões de 25 anos e madames de 40, personal trainers e as personal trainees, se abraçando, rindo risadinhas cheias de intenções, trocando beijinhos, fazendo carinhos disfarçados nas costas mútuas e musculosas. Indecências são é essas aí, não as outras todas, pensei. De cima da escada vi ainda, no outro canto, o mais afastado da entrada, os marombas dos “ferros livres”, um pessoal muitíssimo forte para quem aparelho de musculação, aqueles com polias e etc, é tudo coisa de maricas e mulheres, preconceito logo deles, que tanto se olham, que comparam músculos e apalpam o braço um do outro, às vezes indo ao cúmulo de tirarem medidas com fitas métricas ali na frente de todos, estranhos animais que quando não estão sentados ou se medindo ficam andando pra lá e pra cá sem retirarem os olhos do espelho, com grande risco de tropeçar (maior talvez que o meu de leitor-andante), analisando cada milímetro do corpo — seu e dos outros — com grande circunspecção, formando juízos e pequenas invejas, planejando com base nessa avaliação que exercícios enfatizar.

Lá de cima da escada,  eu via esse teatro lamentável.

Desci as escadas, isso tudo que relato não durando mais que poucos segundos, e fui para as bicicletas com meu Bolaño 2666 nas mãos, um livro enorme, de quase 1000 páginas, pesado como um halteres, de capa grossa. Comecei a pedalar e pus-me a ler, veja você que sempre se ganha com esses arranjos econômicos, como no carro ao escutar audiobooks, por exemplo — a exceção sendo, talvez, o perigoso ler na caminhada, vício do qual definitivamente preciso me livrar. 

Pararam para me olhar, logo percebi, tenho visão periférica. Quiçá o tamanho do livro despertara-lhes a curiosidade, espantados possivelmente com minha habilidade em equilibrá-lo naquela bicicleta, pois ainda que imóvel é sempre difícil pedalar e segurar um livro grande ao mesmo tempo, isso para não falar na tarefa de se concentrar, e se concentrar em língua estrangeira, o que é mais difícil, às vezes impossível mesmo na posição mais cômoda do mundo. Olhei para eles e vi que cochichavam baixinho, sorrindo, me achando ridículo, louco, mais indecente que eles próprios.