Seu Geraldo

carloseduardogoncalves

06 Agosto 2015 | 14h55

O pai do meu pai.  Bicho bravo por fora, manso por dentro. Morador de Del Castilho, onde quase perdeu a casa por um nada. Salvou-o o filho, que veio correndo de Sao Paulo.

Me dizia sempre, sentado na sala quente, o pastor alemao preto solto la fora metendo medo na gente: “mas voce esta muito fraquinho, magro demais, olha meu muque aqui”. Motorista de onibus, forte como um touro. Um tremendo de um muque tinha meu avo.

Dizem que um dia se enfezou com um passageiro, e para nao trucida-lo, desceu do onibus e deu um soco na lataria, que ficou amassada. Ja velho, ganhava na queda de braco do filho mais forte, paraquedista do exercito. Convenhamos, tinha amplos motivos para zombar do neto magricela. Eu emburrava, claro. Mas quando chegava em casa ia fazer flexao de braco, magoado, querendo ganhar o respeito do meu avo. Um dia, com 14 anos ja, mostrei-lhe meu muque minimamente crescido e para minha surpresa ele aprovou, dizendo “agora sim”, e anuiu com a cabeca lustrosa.

Sempre fumando e cofiando o bigode fino. Sempre cuidando do pastor alemao, orgulhoso da braveza do bicho.

Aguentou uma serie de infartos, meu avo. Cabra forte. Iamos visita-lo nos fins de semana entre 1984 e 1986, ele na cama do quartinho grudado na sala, deitado. Me recordo do meu pai perguntando: “como voce esta pai?”, “do que voce esta precisando?”

Mas antes que chegasse 1987, ele morreu. Ligaram na minha casa, meu pai saindo para o trabalho atendeu o telephone, ouviu calado, desligou e se pos a chorar.

Na foto da minha formatura na escolar militar, em 1990, minha vo aparece sozinha, com semblante serio, sem o Seu Geraldo ao lado. Fico pensando que ele teria ficado orgulhoso do meu muque naquele ano, em que passei todas as provas de educacao fisica com nota maxima. Ele certamente teria dito: “agora sim, muito bem”.