Te mato da próxima vez!

A peixeira e a estatística

carloseduardogoncalves

20 de março de 2015 | 09h41

Vinha ouvindo RFI no Iphone deitado no banco do carona; tento fazer isso quase todo dia para não esquecer o meu arduamente adquirido francês.

Concentrado, não percebi que um cara queria me cortar pela direita, e acenava de janela aberta.

O carro dele era velho, ele vestia um chapéu de palha, e fumava — não era dali. O cidadão enfureceu-se, gradualmente, e não conseguia entender que eu queria deixar ele passar, não tinha pressa alguma naquele momento, estava concentrado em entender o que o radialista francês narrava lá da Síria, apenas isso. Mas não teve jeito, pois parece que uma vez atingido um certo estado de raiva, a coisa se torna irreversível. Toda racionalidade vira pó. O rosto do cidadão, impressionante, todo vermelho. E pior: o trânsito paradão.

Ele me passou, enfim, e aí veio o constrangimento na sua forma mais aguda: paramos lado a lado. O moço, que não conseguia esquecer a “desonra”, sacou uma faca bem da comprida e esticou o braço pelo banco do carona apontando-a a mim e quase decapitando a mulher dele (mesmo aqui não sendo a Síria). Gritou: “na próxima eu te mato”. Como sei um pouco de estatística, sei que não haverá próxima, mas não disse isso a ele. O sinal então abriu, ele virou à esquerda (provavelmente achando que havia me assustado) e eu virei à direita (pensando que as pessoas raramente usam a estatística no seu dia-à-dia).

No rádio, a moça agora falava das eleições lá em Israel: “Le Likud a vecú les elections par une marge très etroite”. É Bibi de novo.