Tec-tec-tec

Os diabólicos tablets...

carloseduardogoncalves

06 Agosto 2014 | 15h36

Tec-tec-tec, dedos ágeis ao extremo, espanto-me com tamanha habilidade num espaço tão exíguo, a tela minúscula e eles tão velozes: exímios cirurgiões. Tec-tec-tec, uma fileira de jovens, muito cedo pela manhã, aguardando o início das aulas (antes liam jornais, tomavam café, conversavam, paqueravam, liam livros bolorentos). Tec-tec-tec, eles riem, mas para si mesmos, voltados para dentro, olhando fixamente a tela, seguindo a vida dos outros, acordando alguém. Tudo resumidíssimo — vidas, notícias, análises – em brevíssimas palavras, um jorro de coisas sempre fazendo uso de abreviações assustadoras. Passo de frente a eles, reconheço a feição de alguns, mas, tec-tec-tec, não, eles não respondem meu bom dia. Vejam bem: o tec-tec-tec é baixinho, quase inaudível, não incomoda pelo som como aqui incomoda pelas letras — essas diabólicas invenções são silenciosas ao extremo. Penso: sou antiquado já? Tento refutar a tese, afinal também teclo eu, ainda que bem menos. Foram eles, eles que mudaram. Tec-tec-tec é o novo grunhido do demônio, concluo subindo a rampa em direção a minha sala e pensando em Fausto e em Grande Sertão (sim, já estou sob a influência nociva da literatura), enquanto, tec-tec-tec, desce um deles a rampa sem me ver, me esbarra, vidrado, derruba meus livros, tec-tec-tec, mas aparentemente não se apercebe, já estará sem vida real. Pensei que Huxley descreveu mal o futuro e veio-me à cabeça também o título do último livro que li de Hugo Mãe: “a desumanização”. Não nos fiordes, pois lá não deve funcionar o tec-tec-tec – sem conexão! Aqui mesmo, sem poesia em prosa, às sete da manhã. Tec-tec-tec.