Um amigo do passado

Reencontro

carloseduardogoncalves

29 Novembro 2014 | 10h42

Ele me tratava, quando erámos jovens, como um irmão mais novo. Aconselhava-me sempre sobre diversos assuntos e até escrevia-me quando viajava (isso na época das cartas). Era parte da nossa família, e todos o acolhiam com carinho lá em casa. Eu gostava bastante dele, muito mesmo, eu que não tinha irmão. Mas aquele afeto não durou. 20 anos atrás uma reviravolta inesperada afastou-o de mim, de nós. Entristeci, como frente a uma morte, não só por perder a companhia de um quase irmão, mas por ele, pela tristeza que o assolou então, pela minha impossibilidade de consolá-lo.

Faz alguns meses, o revi. Num giro demoradíssimo de 360 graus, hoje somos quase vizinhos de novo. Descobrimos isso almoçando juntos perto do seu trabalho, após uma troca de e-mails, quando ele me contou da morte da sua mãe no início de 2013. Falamos muito dos nossos filhos também, das esposas, dos estudos, e eu via que ele estava feliz por me reencontrar, me chamando pelo apelido antigo, quase esquecido. No entanto, no fundo dos seus olhos eu notava que aquela tristeza subsistia, e que ao me ver, um pouco da sua dor adormecida retornava, por associação. Claro, evitei sequer tangenciar o assunto e, na superfície, tudo correu bem. Mas me parecia que um redemoinho rodopiava dentro dele, e eu sentia que uma força triste e avassaladora o subjugava. Já no fim do nosso breve encontro, quando tínhamos poucas revelações adicionais para nos fazermos um ao outro, um rubor húmido e quase imperceptível brotou em seus olhos. Fingindo não perceber seu mergulho ao passado, preparei-me para responder à pergunta que me parecia iminente. Mas ela não veio, e nos despedimos com promessas mútuas de nos revermos mais amiúde.

Nas semanas seguintes, tentei em vão agendar um encontro entre as nossas famílias, e depois da terceira tentativa resignei-me, por respeito ao seu passado.