Um homem calculava no metro

carloseduardogoncalves

10 Julho 2015 | 21h03

Quando sentei a seu lado, ele ainda o guardava na maleta de couro machucada pousada no seu colo. Ele o escondia?

Logo saquei da minha mochila a prosa completa de Bruno Schultz e pus-me com grande esforço a entender aquelas linhas cheias de existência própria do desenhista fabuloso, o trem num movimento equívoco, incômodo, com freadas e aceleradas desnecessárias que enjoavam o estômago. Foi então que ele, um homem já nada novo, possivelmente até mais velho do que eu, sacou da maleta um livro de cálculo matemático.

“Calculus for beginners”, de capa amarelada, rasgado nas pontas. Por que ele carregava aquele livro, pensei? Parecia-me tão paradoxal, aquele homem de jeito acanhado, um imigrante certamente, como eu, de roupas maltratadas, um maltrapilho talvez chegado ontem mesmo da nebulosa fronteira do México, estudando cálculo de derivadas e integrais, e em inglês !

Tentei não intimida-lo com um olhar muito fixo, mas não pude resistir à vontade de espiar sua relação com aquele livro. Decidi perder minha parada para acompanha-lo até onde pudesse, e talvez até mesmo interroga-lo a respeito de tudo aquilo, do significado daquele livro para ele.

Esse homem que calculava seguramente não percebeu toda minha tensão, minha profunda intrusão espiritual nos seus afazeres, pois logo posicionou calmamente uma folha de papel por cima do livro agora fechado e se pôs a resolver os exercícios que aquele lhe propunha. A derivada do log, a derivada da função exponencial, ele ia traçando as respostas, um quase mendigo treinando sua mente nas delícias do cálculo matemático. Uma visão, o que era aquilo? Ele existia? Ele saíra do livro do senhor Schultz para me apavorar? Mas não, ele era real, e eu via que ele acertava, que dominava aquelas derivadas parciais, que seu treino já o levava a uma forte autoconfiança na solução dos exercícios. Seguramente ele não havia começado aquela aventura ali no trem, mas antes, muito antes. Onde, porém? E com que fins? Seus trajes seguiam me embaçando as ideias, turbando qualquer tipo de ilação. Eu me sentia dentro de um livro, já não podia mais ler, me sentia um personagem precisando desvendar um mistério enorme, importante.

Um momento de distração: alguém falou alto a meu lado e, negligente como sempre, olhei para ver o que ocorria, se se tratava de uma briga, pois agora escutava também uma outra voz, feminina, chorando em berros, e sentia uma movimentação de corpos apertados a abrirem caminho para uma querela que crescia em intensidade e se mexia dentro do trem apertado. Um momento de distração, e eu o perdi. Quando virei-me, ele não estava mais ali a meu lado, o banco agora vazio, a folha com os exercícios corretamente resolvidos de face para cima, como que rindo de mim. Desesperado, grudei o rosto na janela de vidro e o vi se afastando pela estação, com o livro debaixo do braço, sem olhar para trás, até desaparecer em meio à multidão.